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Fernando Alvim: “Entendo a cultura como um registo da trajectória da civilização humana”

Sebastião Félix por Sebastião Félix
10 de Abril, 2026
Em Entrevista
Carlos Moco

Carlos Moco

Na sua casa no Mussulo, em Luanda, onde também tem o seu “atelier”, com obras em curso e outras já finalizadas, o artista plástico angolano Fernando Alvim recebeu a equipa do jornal OPAÍS para uma entrevista. Durante a conversa, o então comissário de exposições falou de vários aspectos ligados à cultura angolana e africana. O artista plástico defendeu os valores da cultura africana e o respeito entre os homens sem distinção, à luz de várias civilizações que actuam na história da humanidade. Para Fernando Alvim, a implantação de vários museus em cada cidade capital das 21 províncias de Angola estimularia mais os artistas e aumentaria a cultura dos cidadãos para uma melhor compreensão do passado, presente e do futuro

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Qual é o seu ponto de vista em relação à cultura no país?

O país é enorme; seria injusto dizer que ela não progrediu. Normalmente, quando somos exigentes, gostamos que as coisas estejam melhores do que aquilo que se podia desejar. Penso que temos a capacidade de desenvolver a cultura a uma velocidade superior àquela a que a temos de- senvolvido. Mas, se quisermos fazer um ponto de 1975 até hoje, nos últimos 20 anos, podemos dizer que temos muito mais produtores, muito mais músicos, muito mais grupos de teatro. Mais filmes — é sempre pouco em relação àquilo que desejamos. A relação entre a arte e a história é de tal ordem inequívoca que não temos artistas suficientes para a dimensão histórica do nosso país. Por isso, ainda há muito por se desenvolver. Mas não posso também ser negativista ao ponto de dizer que estamos mal. Temos uma capacidade de desenvolver, porque já demonstrámos que temos pessoas que sabem pensar a cultura no nosso país. Conheço muitos amigos que são intelectuais, outros são artistas, que têm capacidade. Bom, precisam muitas vezes de meios, porque a cultura é uma questão de meios. Sou também pela cultura privada, mas penso que compete ao Estado, pelo menos, gerir grande parte daquilo que é o desenvolvimento cultural, para que chegue a um nível em que depois funcione sozinha. Quase todos os países do mundo assim o fizeram. Se amputarmos uma parte considerável da participação do Estado no desenvolvimento cultural desses países, tenho a certeza absoluta de que vamos perceber que eles não se sustentam.

Por que razão?

Quando o Estado financia um projecto, é dinheiro dos impostos. Nem sempre, porque a questão dos impostos no nosso país ainda não está suficientemente desenvolvida em relação à dimensão da sua população, pois a maior parte da população não consegue acumular o capital desejado para participar de forma activa também na questão dos impostos. Tenho que ser honesto: sobretudo a música, que penso que é a expressão número um, a própria dança, o teatro, com o número de grupos, o número de curadores, que aumentou, para se atingirem novos desafios.

Depois do que explicou, conclui que deve haver participação política para haver cultura?

Quando digo política, estava a referir-me ao Estado — mais ao Es- tado, obviamente — com decisões de política cultural, porque vivemos numa época em que há cada vez mais dificuldades em definir os conceitos e as palavras. Vivemos numa época de enorme confusão: por exemplo, quando se fala política, os franceses dizem “la gestion de la ville”, ou seja, a ges- tão da cidade ou da sociedade. E depois há a política partidária, que é um outro assunto. A política de um Estado não tem que ser necessariamente confundida com a política de um partido. Obviamente que ela tem uma influência enorme. Os partidos que ganham as eleições em qualquer país do mundo são aqueles que nomeiam as pessoas para o Governo; por conseguinte, desenvolvem dentro dos partidos as políticas que vão ter impacto nas políticas do Governo que está no poder, obviamente! Mas os Estados têm também aquilo a que chamam altos funcionários públicos: são aqueles administrativos que, apesar de mudarem de partido, continuam a operar em prol da nação, do bem comum e das comunidades. Portanto, o Estado é perene; o Estado não acaba. As empresas podem fechar, mas o Estado não.

Tem uma outra concepção daquilo que é o Estado?

É a participação em políticas culturais que são determinadas por políticos; a própria Assembleia Nacional, qualquer casa das leis, pode criar leis, onde há representatividade de todos os partidos.

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