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OPAÍS

Quando Angola era sinónimo de glória no basquetebol africano

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
19 de Agosto, 2025
Em Opinião
Quando Angola era sinónimo de glória no basquetebol africano

Houve um tempo em que o nome “Angola” ocupava as manchetes dos jornais desportivos de todo o continente. Não era por política, nem por notícias de guerra, era pelo basquetebol.

Em plena década de 90 e nos anos 2000, a seleção nacional masculina reinava no Afrobasket, colecionando títulos e conquistando respeito. Num país que saía lentamente das ruínas deixadas por décadas de conflito, aquelas vitórias eram mais do que troféus: eram momentos de união, orgulho e esperança. Como é sabido, não tínhamos abundância.

Reitero, o país ainda se construía das cinzas da guerra… mas tínhamos uma seleção que nos fazia sonhar. Cada ponto marcado era uma pontada de esperança no coração do povo. A cada campeonato, as ruas enchiam-se de sorrisos.

O som das buzinas misturava-se com a batida dos tambores improvisados, e até os mais cépticos deixavam-se contagiar. O basquetebol tornou-se o bálsamo que curava, por instantes, as feridas de um povo cansado da escassez e da incerteza. O grito de vitória ecoava de Cabinda ao Cunene, cruzava fronteiras e chegava a todos os cantos de África.

Era o tempo em que o Afrobasket vestia as nossas ruas de vermelho, preto e amarelo. O apoio do público era, sem dúvida, um dos pilares do sucesso da Seleção Nacional de Basquetebol nesse período.

Nos jogos em casa, os pavilhões enchiam-se muito antes do apito inicial, com uma vibração que contagiava os jogadores. O som dos tambores, as palmas ritmadas e os cânticos criavam uma atmosfera única, que transformava cada partida num verdadeiro espetáculo patriótico.

O público não era apenas espectador: era parte activa da estratégia, motivando e intimidando adversários. Quando o campeonato era fora de Angola, a paixão atravessava fronteiras.

Organizaram-se caravanas de adeptos, que viajavam de autocarro, carro ou até de avião para apoiar a equipa. Muitos faziam longas jornadas, dormindo em condições improvisadas, apenas para estar presentes e mostrar à Seleção que não estavam sozinhos.

Era comum ver bandeiras, camisolas e cartazes a colorir as bancadas estrangeiras, fazendo com que, mesmo longe de casa, Angola parecesse jogar no seu próprio território. Quando a bola voava para três pontos, as bancadas explodiam: “Sacooooo!”.

Era o som da alegria, o som da superação. Eles mostraram ao mundo que a grandeza de um país, não se mede pelo tamanho do seu território, mas pela coragem dos que o representam. Hoje, ao lembrar esse tempo, sentimos saudade… mas também o desafio de devolver ao nosso basquetebol o brilho que, um dia, fez de Angola a alegria e o orgulho de África.

Este ano, no dia 12 de Agosto, por sinal, data do meu aniversário e Dia Mundial da Juventude, começou mais uma edição do Afrobasket. Que seja não apenas o reinício de uma competição, mas a renovação de um sonho.

Que a nova geração se inspire nos gigantes que, um dia, fizeram de Angola a alegria e o orgulho de África. Que nomes como Victorino Cunha, Luís Magalhães e Mário Palma, com este último, Angola conquistou quatro títulos consecutivos do Afrobasket (1999, 2001, 2003 e 2005), além de participações competitivas em Campeonatos Mundiais e Jogos Olímpicos, continuem a soar como referência para as novas gerações de jogadores.

A este, auguro que, nos próximos campeonatos do Afrobasket mantenham o espírito de glória e superação que marcaram o passado. Mas, para isso, é fundamental investir numa preparação de longo prazo.

Isso significa criar um plano estratégico que vá muito além da fase de concentração, envolvendo o acompanhamento contínuo dos atletas, programas de formação de base e a aposta em centros de alto rendimento.

O basquetebol angolano já provou ter talento, porém, para se manter no topo, é necessário que a organização e a estrutura estejam à altura das exigências da competição moderna. Outro ponto crucial está relacionado a renovação e integração de novos talentos.

As gerações de ouro inspiraram multidões, mas o futuro exige que a nova safra de jogadores seja descoberta, preparada e motivada desde cedo. Competições internas bem organizadas, intercâmbios com equipes estrangeiras e estágios internacionais, podem acelerar o desenvolvimento dos jovens. É preciso que eles entrem na selecção com experiência competitiva e mentalidade vencedora.

Essas caravanas e deslocações criavam momentos memoráveis, não só para os adeptos, mas também para os jogadores, que frequentemente destacavam a energia e o calor humano como factores decisivos nas vitórias.

O orgulho nacional estava estampado nos rostos e nas vozes de cada um, criando uma ligação quase espiritual entre equipa e nação. Era mais do que basquetebol: era um movimento colectivo que reforçava a identidade angolana e mostrava ao continente africano a força de um povo unido pela mesma paixão.

Nomes como Jean-Jacques da Conceição, Victor de Carvalho, Ângelo Victoriano, Baduna, Benjamin Avó, Carlos Guimarães, Paulo Macedo, Olímpio Cipriano, Carlos Morais e Miguel Lutonda, Aníbal Moreira, Kikas, Walter Costas e outros… tornaram-se lendas vivas.

Eram heróis que carregavam nas costas, não só a camisola da selecção, mas também os sonhos de milhões de angolanos. Cada cesto marcado contra adversários como Nigéria, Senegal, Tunísia e Egito, era celebrado como se fosse a própria vitória da nação contra o infortúnio.

O Afrobasket não era apenas um torneio: era um palco onde Angola mostrava que, apesar das dificuldades, podia ser a melhor. Era a prova de que disciplina, talento e trabalho de equipa podiam derrotar gigantes e inspirar gerações.

Por: YARA SIMÃO

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