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Que língua portuguesa se fala hoje?

Jornal Opaispor Jornal Opais
17 de Março, 2025
Em Opinião
Que língua portuguesa se fala hoje?

Há dias, enquanto acompanhávamos informações pelas redes sociais, deparámo-nos com um debate promovido pela TV Zimbo, cujo tema de conversa se reflectia no título desta reflexão. Não havia mal algum no debate em si, tampouco nos convidados; contudo, as abordagens trazidas pelos dois senhores resvalavam para um certo desconhecimento voltado ao saber da língua portuguesa.

Parafraseando a resposta dada por nós naquele dia: a língua portuguesa é a mesma para todos que a usam como meio de comunicação e interacção.

Assim, para fazermos uma abordagem sobre ela, precisamos, em primeiro lugar, perceber o seguinte: i) A língua, no uso diário, sofre frequentemente variações, das quais destacamos a diatópica, que tem a ver com as formas dialetais e regionais de cada país.

Por exemplo: em Portugal, dizse autocarro; no Brasil, ónibus; e em Angola, essencialmente, dizemos autocarro. Há ainda variações dentro da mesma localidade geográfica, como em Lisboa vs. Porto ou Cabinda em comparação a Huíla, no que diz respeito ao aspecto fonético de certas palavras, sem esquecer, claro, a influência de outras línguas não latinas no aprendizado do português. ii) Além dessa característica da língua, podemos destacar os acordos ortográficos e normas.

No primeiro caso, percebemos a necessidade de unificação linguística no que diz respeito à escrita entre todos os países que falam português, embora muitos, além de Angola, ainda não tenham ratificado o acordo. Neste aspecto, importa realçar o facto de que, nos países não signatários, vive-se à margem do acordo de 1990, mesmo sem a sua oficialização. Refiro-me, propriamente, a Angola.

Quanto às normas da língua portuguesa, é necessário dizer que a língua precisa, afora de um guia descritivo, ser regulada na sua forma escrita, para que os indivíduos sejam considerados cultos no seu uso quotidiano, a fim de que a comunicação flua de maneira clara e eficiente. iii) Identidade cultural: inegavelmente, a língua possui uma característica de culturalizar as comunidades, funcionando como um elemento identitário que reflete a cultura, a história, hábitos e costumes de um determinado povo. iv) Não menos importante, temos o estudo e análise da língua como um veículo de globalização.

A língua, neste sentido, pode ser uma ferramenta de comunicação verbal entre os estratos empresariais, trazendo facilidades na expansão da comunicação escrita por meio da internet, sem ignorar a fraqueza e preguiça de escrita devido às abreviações excessivas em mensagens curtas e objectivas. v) Para falarmos da língua e do seu uso, não devemos, de igual modo, esquecer a literatura clássica, pois desempenha um papel crucial no enriquecimento lexical da própria língua.

Além disso, não se pode separar a influência das músicas, novelas, cinema e dublagens no desenvolvimento linguístico de um país, ou mesmo, pelo conteúdo desses programas, enfraquecer ou emburrecer as massas. vi) Outro ponto são os preconceitos linguísticos, comportamentos que, segundo Bagno, circunscrevem-se em atitudes de achar que há línguas melhores e superiores do que outras na sua forma de falar, quando o facto é que todas as variantes têm um espaço singular no panorama linguístico. vii) Finalmente, temos os desafios no processo de ensino e aprendizagem da língua e as políticas linguísticas.

No primeiro ponto, é inegável, muitas vezes, que ensinamos mal. Essa falha, por sua vez, enlanguesce a vontade de muitos utentes em aprendê-la, especialmente quando percebem que o seu ensino se circunscreve unicamente ao “está errado” e “está certo”. Assim, urge mudar de paradigma, caso contrário, os inimigos da língua multiplicar-se-ão.

Em relação às políticas da língua, cabe ao Estado e à Sociedade a necessidade de promover e defender a língua portuguesa em seminários internacionais para que a sua influência nos órgãos superiores seja evidente, notada e discutida.

Deste modo, reflectindo nestes pontos, concluímos que debates com temas voltados ao aspecto do uso da língua portuguesa, mormente, não se podem restringir a receitas simplistas (certo e errado) nem tão-pouco reduzir as informações, pois carregam consigo elementos importantes para o conhecimento do todo.

Logo, aos professores de língua, os desafios serão ordinários, como sempre: consciencializar os alunos para uma visão mais global e menos dogmática em relação à língua que estão a aprender para usá-la conscientemente!

 

Por: GABRIEL TOMÁS CHINANGA

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