“As palavras educam e os exemplos atraem”. Ouvi esta frase de um padre polaco, durante uma homilia há alguns anos, na capela de Santo Agostinho, no Cazenga. O sacerdote explicava como os comportamentos dos pais influenciam a forma como os filhos os tratarão no futuro.
Para ilustrar a ideia, contou a história de um homem bem posicionado na sociedade que mantinha o próprio pai isolado numa cubata, no fundo do quintal. Era ali que o velho dormia e fazia as refeições, afastado dos netos, que sentiam repulsa pelo seu estado físico.
Em vez de cuidar daquele que um dia cuidara de si, o filho preferia mantê-lo longe da família. Anos depois, o homem morreu. Após o funeral, o filho ordenou a destruição da cubata, alegando que já não havia necessidade de conservar aquele espaço.
Mas os seus filhos contestaram a decisão: aquele lugar seria necessário quando também ele envelhecesse. A lição era simples e perturbadora: o tratamento dispensado ao pai tornara-se o exemplo que os filhos estavam dispostos a seguir. Afinal, as palavras podem ensinar, mas são os actos que deixam marcas profundas. É por isso que certos episódios causam tanta indignação.
Como o caso noticiado desde ontem, por sinal, no Cazenga, envolvendo um pai que teria atraído a própria filha a uma hospedaria, sob o pretexto de lhe entregar dinheiro para a propina, quando, segundo a notícia, a intenção seria abusá-la sexualmente.
Que tipo de pai é este? Que exemplo deixa à sociedade alguém que, em vez de proteger a filha, alegadamente se aproveita da confiança que ela deposita na figura paterna? Um pai deve ser abrigo, protecção e segurança. Deve ser a mão que ampara, a voz que orienta e a presença que tranquiliza. Nunca alguém de quem a própria filha tenha de se defender.
A paternidade não pode servir de disfarce para a violência nem para actos que destroem a confiança de quem deveria receber amor e cuidado. Histórias desta natureza repugnam e entristecem. Obrigam-nos a questionar os valores que transmitimos às novas gerações. Não basta exigir respeito aos filhos quando os próprios pais desrespeitam aqueles que deveriam proteger.
Não basta falar de moral, família e bons costumes quando as atitudes desmentem o discurso. Os exemplos deviam atrair, inspirar respeito e despertar admiração.
Quando aqueles que deveriam ser referências se tornam motivo de vergonha, a sociedade tem razões para se preocupar. Se os factos forem confirmados, a gravidade do caso exige responsabilização.
A condição de pai não confere imunidade moral nem legal a ninguém. Permanece, assim, a lição daquela homilia no Cazenga: os filhos observam e reproduzem muito do que vêem.
Antes de exigirmos que sejam melhores do que nós, precisamos mostrar, com actos, o que significa ser melhor. “As palavras educam. Os exemplos atraem”. E, por vezes, condenam-nos ao espelho daquilo que fomos.






