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OPAÍS

Pelo fim do ensino mecanizado da Língua Portuguesa

Jornal Opaispor Jornal Opais
22 de Agosto, 2024
Em Opinião

A Língua Portuguesa, em Angola, além de ser uma disciplina crucial na grelha curricular, é, também, uma ferramenta por meio da qual se ministram as aulas das demais disciplinas, como se pode ler no artigo 16º da Lei de Bases do Sistema de Educação e Ensino (Lei 17/16, alterada, nalguns artigos, pela 32/20), onde se nota que “o Ensino deve ser ministrado em português”, isto é, a Língua Portuguesa, em Angola, deve ser usada pelos professores, em particular, na condução do ensino-aprendizagem, o que, por sinal, só aumenta a responsabilidade de cada professor, pelo menos, em ter conhecimentos gerais de Língua Portuguesa, para que sirva de alavanca na aprendizagem significativa desta importante disciplina “para qualquer que se preze estudante e não só” (Cabalmente, 2022).

No entanto, a nossa maior preocupação tem sido sobre a forma como se têm ministrado as aulas de Língua Portuguesa, resumindo-se num simples ditado de conteúdos gramaticais, o que, muitas vezes, faz com que os estudantes tenham apenas uma mini-gramática nos seus cadernos, não sendo capazes de responder aos vários desafios linguísticos, como os voltados à compreensão e interpretação textuais.

Infelizmente, sem medo de errar, temos assistido a um número gritante de estudantes com cadernos cheios de conteúdos gramaticais, dos quais pouco ou nada entendem, porque estão alinhados numa perspectiva de memorização de conceitos, como se “as palavras não ganhassem significado em função do contexto”.

Por outro lado, isto se traduz na elaboração de provas de Língua Portuguesa sobre os conceitos de classes de palavras, perguntas sobre “o que são pronomes”, quando seria muito mais prático pedir aos estudantes que retirassem os pronomes da frase ou, no mínimo, que os diferenciassem dos determinantes.

Uma das razões desta mecanização do ensino prende-se com o facto de há muito se ter a percepção errada de que “todo mundo pode ser professor de Língua Portuguesa”, ou seja, era só ler um pouquinho ou ter uma gramática consigo na sala de aula, que o professor estaria preparado para ministrar as aulas, pois, bastava ditar os conteúdos.

No entanto, como sublinham Sim-Sim; Duarte e Ferraz (1997: 104-105), “o facto de se ser falante de uma língua não garante o nível de conhecimento reflexivo e sistematizado da referida língua para poder ensiná-la”.

As palavras supracitadas deixam claro que ensinar uma língua, como o Português, não é coisa para qualquer um, exige formação específica, com aprendizagens de Metodologias próprias para o ensino da Língua Portuguesa.

Por outro lado, nem mesmo o dito falar bem constitui factor suficiente para ensinar bem a Língua Portuguesa, pois é uma disciplina com Métodos, Técnicas e Procedimentos próprios. Contudo, muitos, lamentavelmente, mesmo sem formação ou, pelo menos, pesquisas suficientes sobre os fenómenos linguísticos, mecanizam o seu estudo, denunciando as suas fraquezas quer nos conteúdos que dão, quanto nas provas que elaboram.

Por exemplo, além de não passar de “o que é quê”, confundem interpretação com compreensão textual, cometem erros na uniformização do tratamento e tantos outros deslizes, só para citar alguns. Este problema, para piorar, é visível até mesmo por parte de estudantes formados nos cursos de Ensino da Língua Portuguesas, sobretudo a nível médio.

Talvez porque o estudo mecanizado da Língua Portuguesa se tenha tornado uma relíquia, passando de geração em geração. Assim, há uma urgente necessidade de se reverter o quadro, exumando o real perfil dos professores de Língua Portuguesa, que devem dominar os métodos e as técnicas de Ensino da Língua Portuguesa, num ambiente que coloque os estudantes como activos no processo, dando cada vez mais o seu melhor.

Portanto, a olhar para alguns motivos que elencámos – dos vários existentes –, percebe-se a necessidade de se ter professores formados na área de Ensino da Língua Portuguesa e que consigam, ao mesmo tempo, dinamizar as suas aulas, tornando-as mais interessantes, no intuito de dotar os estudantes de competências suficientes para responder aos desafios linguísticos hodiernos, evitando a mecanização do Ensino desta peculiar disciplina.

 

Por: PEDRO JUSTINO “CABALMENTE

*Professor e Académico

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