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Palavra de honra – Vidas de Ninguém (XIII)

Domingos Bentopor Domingos Bento
27 de Fevereiro, 2026
Em Opinião

«Bruxa, xira, ngapa, feiticeira», abusavam os miúdos no bairro que ela ajudou a erguer quando, ainda jovem, na casa dos 15 anos, foi lá morar, fugindo da intensa guerra que assolava o Huambo. A idade foi passando e mais velhinha a avó Sambita foi ficando.

O rosto cansado, o olhar distante, a perda das forças e a frieza no contemplar não serviram para que as pessoas tivessem o mínimo de respeito por quem viu a vida seguir o seu curso, sem nunca ter corrido mais do que aquilo que o tempo pudesse permitir.

No bairro todos a acusavam de bruxa, mas ninguém tinha provas. Os seus cabelos brancos, puxados pelos 71 anos de idade que carregava, não eram sequer respeitados. E tudo o que dava errado no bairro os vizinhos lhe culpavam. Até mesmo quando os cães na rua não ladravam durante a noite, era ela a culpada. Não havia quem a pudesse defender das acusações.

O seu ventre não gerou filhos. O único homem a quem jurou amor tinhaa abandonado ainda no calor da mocidade. Tinha ela 35 anos quando ele foi embora, porque não poderiam gerar descendentes. «Essa meteu a nascença na maiombola. Não conseguiu alcançar para comer os nossos filhos, sua bruxa de uma figa. Vais acabar no inferno, feiticeira», xingava a mana Rosita, vizinha de porta a porta.

Noutro dia, também a filha da mana Tetinha não dormiu durante a noite por causa da tosse e da febre que ardia sob o corpo. Quando amanheceu, ao invés de se preocuparem em levar a criança ao hospital, foram logo acusar a avó Sambita de ter feito macumba. Bateram nela, chamaram-lhe todos os nomes feios. Inclusive, o Cassongo já havia comprado petróleo, recolhido sacos plásticos e fósforos para queimá-la.

Se não fosse o Capingala, o militar que tínhamos no bairro, que dispersou a multidão com dois tiros para o ar, a coitadinha da velha seria queimada. Enquanto batiam nela, os panos desprenderam-se do corpo e toda a comunidade viu a sua nudez de 71 anos exposta, sem o mínimo de respeito. As suas mãos calejadas, o corpo frágil, as rugas marcadas registaram os sinais da brutalidade e da violência gratuita contra a pobre velhinha. «Parem com isso. Quem voltar a mexer nesta senhora sou capaz de enfiar-lhe uma bala nos cornos.

Querem gozo ou quê? Só um bruxo é que consegue ver o outro bruxo. Então, se vocês dizem que ela é bruxa, é porque vocês também são outras cambadas de bruxos», atirou o vizinho Capingala, visivelmente chateado, empunhando a pistola nas mãos.

«Erreh, mas esse aqui então está a acudir assim essa bruxa porquê? Será que foi ela quem lhe deu pau para entrar nas Forças Armadas…», cochichavam nos cantos a Miloca e a Maneva, que naquela manhã também ajudaram a bater na velha Sambita, que, fruto da violência, perdeu dois dos poucos dentes que tinha. Até o Pimbito, que a velha ajudou a criar quando era criança, naquele dia também bateu nela.

Dizia que era ela a culpada por não conseguir emprego e uma mulher de verdade. Mas como é que ele devia trabalhar, se passava a vida a beber à toa no bairro? Sempre que conseguia um emprego, era enxotado no mês seguinte porque, quando o salário caía, fazia festa e esquecia o trabalho. Só se lembrava de voltar ao serviço quando o salário terminava. Por isso, a mulher dele tinha ido embora.

Que esposa digna devia perder tempo com um homem que só cheirava a bebida a todo o instante? «Queimem essa bruxa aí. Por causa dela perdi a minha mulher e o meu emprego. Queimem também a vassoura dela», gritava, eufórico, o Pimbito ao lado daquela multidão enorme, enquanto dava chutes nas coisas da avó. Nem sequer tinha dó daquelas panelas velhas e escuras com o fumo da lenha que o ajudaram a ser homem.

Os panos pretos, a casa de pau-a-pique, o candeeiro a petróleo, a esteira onde a velha dormia e o cesto de roupas dela, que ficava no canto do quarto de chão de terra batida, foi tudo jogado fora durante a agressão que ela sofreu. «Palavra de honra, juro perante as vossas injustiças sobre mim: se acham que sou feiticeira, então levem-me à Santa Ana.

Cortem o meu corpo, deixem que o meu sangue escorra pelo chão, que vai transformar-me em pó. Mas, se eu não sou feiticeira, espero que vocês saibam aguentar o peso da justiça de Deus… porque esta é certa», lamentava a velha Sambita, enquanto se contorcia de dor, ensanguentada, estendida no chão, depois da violência gratuita de que foi vítima.

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