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Os arquétipos cágado e coelho em Ungende de Sipitali – simbolismos e um discurso axiológico

Jornal Opais por Jornal Opais
7 de Outubro, 2024
Em Opinião

Entre os escritores benguelenses da nova vaga, destaca-se Job Sipitali, autor que inicia a sua vida literária em 2017 com a publicação do poemário Raízes cantam. Por este facto, no cenário literário benguelense, Sipitali dispensa apresentações, no entanto, numa espécie de sitz im lebem fotográfico convém asseverar que o autor é natural de Benguela, município do Cubal, mestre em Ensino da Língua Portuguesa pelo ISCEDHuíla e membro do Movimento Litteragris.

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Além de publicações em antologias como Entre a lua, o caos e o silencio: Flor (2021), possui presença na Revista de Crítica Literária Mayombe e ,em 2017, com a obra Raízes Cantam foi congratulado com o Prémio Literário Jovens da Banda.

Em modo de continuidade da vida literária, o autor lança, em 2024, a sua segunda obra intitulada Ungende, trazendo ,com essa, à ribalta um género pouco explorado entre os novos autores, a fábula.

Ungende constitui um receptáculo de narrativas curtas com aspectos simbólicos e axiológicos significativos próprio da Literatura Oral e a sua raridade não se reduz ao facto de explorar o género fábula mas também por ser uma obra bilingue, umbundu-português, levando-nos a inferir que se trata de um trabalho etnográfico sobre a epistemologia umbundu.

Este intercâmbio entre a etnografia e a literatura não é um fenómeno novo, já que para além do autor em causa, Patissa, Raul David e Kapitiya são exemplos de escritores benguelenses que retratam a cultura umbundu, apresentando etnemas em um discurso literário e descrevendo, assim, o modus vivendi dos povos ovimbundu, principalmente, os benguelenses; deste modo, com esta obra, Sipitali torna-se o herdeiro natural de Francisco Kapitiya, autor igualmente de uma riquíssima obra de fábulas, O cágado nas fábulas africanas.

Reitero, a obra Ungende constitui uma valorização da cultura e da pedagogia do povo ovimbundu, daí o autor preferir a língua umbundu para intitular a obra, Ungende, lexema umbundu que significa viagem, peregrinação.

Destarte, a presente obra deve ser estudada como um contributo significativo da Literatura Oral, logo o nosso escopo é descrever os arquétipos cágado e coelho muito frequentes nas fábulas africanas, na oratura, e apresentar alguns aspectos axiológicos e simbólicos que deles podem advir.

A Literatura Oral faz recorrência, normalmente, a arquétipos, figuras representadas por animais, para ensinar determinados valores ao ser humano, cada um deles possui o seu específico simbolismo, observando-se nomes de animais em vários contos, mitos, lendas, fábulas etc. e são várias vezes usados pelo narrador griot como meio de identificar o ser humano em relação a outros seres vivos, ocupando um lugar importante, representando um defeito, uma qualidade, um comportamento moral ou social.

Tal comportamento, actuação caracteriza-se pela constância, ou seja, mudam-se os espaços, os enredos, o tempo, mas a psique, a atitude dos animais permanecem as mesmas, por isso associa-se à Teoria dos Arquétipos, fundada pelo psicanalista suíço Carl Gustav Jung na Época Contemporânea, apesar de ser um conceito já explorado na Antiguidade Clássica; segundo o autor, a ideia de arquétipo “ indica a existência de determinadas formas na psique que estão presentes em todo tempo e em todo lugar.” (Jung: 2014, p. 51-52) Em Undenge, Sipitali explora diferentes arquétipos, porém cágado e coelho são os mais recorrentes, já que o cágado aparece quatro vezes e o coelho três, precisamente, nas seguintes fábulas: O Camaleão; O Cágado e o Coelho; Pensamentos, para o caso do Cágado e O Coelho; O elefante e O Cágado e o Coelho, para o último.

Amiúde, os animais lebre e camaleão são usados para subistituir os arquétipos Cágado e Coelho, respectivamente. Em Undenge, a representação da pedagogia umbundu, o arquétipo cágado é semanticamente antónimo de coelho, aparecendo cada um em momentos diferentes nas fábulas.

A título de exemplo, ambos arquétipos aparecem na fábula “ O cágado e o Coelho” (Sipitali: 42-43) em que o narrador griot apresenta primeiro o cágado como uma figura sábia e mais tarde o coelho com a sua astúcia e esperteza, repare « o Cágado testando a inteligência dele, subiu a uma palmeira.

Ali, contemplava a natureza, transmitia a tradição do céu a outros animais e dava-lhes frutos. Nesse convívio amoroso, surgiu subitamente o Coelho. Olhou para o Cágado e os animais que saltavam no chão.

Em seguida, pegou no machado. Cortou a palmeira. Satisfeito, aproxima-se do Cágado e pergunta-lhe: – como subiste ali? O Cágado que já quis se livrar do Coelho, sabiamente, diz-lhe: – para se subir rápido a uma palmeira, tem de se partir de uma cova a correr.

O Coelho, sem pensar duas vezes, saíu dali a rir. Entrou numa cova negra. Caíu na boca de leões ferozes.» o cágado, por ser caracterizado como lento, viver muitos anos e usar a sua carapuça como abrigo, é usado para simbolizar a estabilidade, a organização, a experiência , enfim a sabedoria, daí , em determinadas decisões os seus resultados são mais definitivos, longínquos.

Por constituir esta figura muito ligada à razão e à experiência, aparece em inúmeras fábulas, contos, canções como convidado para resolver os grandes problemas do reino animal.

As pessoas que possuem essas características são associadas ao cágado, como os Mais-velhos, que na cultura ovimbundu e grupos vizinhos são muito respeitados, tornando fértil o surgimento de adágios que valorizam a senilidade, como “ okulu ondaka” ( o Mais-velho tem a palavra).

O cágado é, portanto, o arquétipo do ajuizamento, da sabedoria e a sua actuação nas fábulas é rica em axiologia, ensinando vários valores como a temperança, o respeito, a sabedoria, mansidão, a razão etc.

O coelho é um animal que se reproduz rápido, ágil, capaz de fugir facilmente dos predadores, realiza as suas actividades mais à noite que no período diurno, a sua aparência dá o ar de um animal muito atento devido aos seus olhos esbugalhados direccionados a todos os lados e orelhas em posição vertical; todas essas características físicas e psicológicas permitiram que o animal coelho fosse usado como um arquétipo em contos, fábulas, provérbios africanos (umbundu) para simbolizar, na epistemologia umbundu, a rapidez, a velocidade, astúcia, inteligência, esperteza.

O arquétipo coelho é convidado também para dar solução em determinados problemas do reino animal, no entanto, com resultados pouco duradouros e sempre fraudulentos. Veja-se, por exemplo, a atitude do coelho na fábula “ O Elefante” « No princípio do mundo, um elefante caçador apanhou uma cabra do mato. Pensou em vender a carne desse animal. Pelo caminho, cruza-se com o coelho: – Coelho, estou a vender carne de cabra do mato.

O Coelho verifica a carne. Em seguida ,diz: – Isso é carne de cão, ó Elefante!… – fumaste, né? Isto é carne de cabra do mato. Não compras, deixa. Disse o Elefante, avançando. (…) À medida que avançava, foi pensando: cruzei-me com o Coelho, disse-me que isto era carne de cão. O Rato Monteiro disse-me a mesma coisa. Epah , isto, então, é mesmo carne de cão … Dito isso, deitou fora a carne.

Afinal o Coelho e o Rato Monteiro seguiam o Elefante secretamente. Apanharam a carne e comeram-na.» como vemos em ambas fábulas, o arquétipo coelho figura-se como a representação da astúcia , avareza, que se apresenta como esperto, mas pouco sábio.

Este arquétipo juntamente com a figura do cágado criam a dicotomia sabedoria e esperteza, nas comunidades bantu, dando-se sempre à primazia a sabedoria.

Os dois arquétipos usados em uma fábula simbolizam a necessidade de ser humilde e sábio, como o cágado, o arquétipo do auto-domínio, longividade, sabedoria.

Se podemos entender que o cágado representa figura do Mais-velho, experiente e sábio penso que não seria falacioso, entender o coelho como a representação da figura jovial, imberbe; usa-se ambos arquétipos para moralizar, ensinar de terminados valores : astúcia, esperteza (arquétipo coelho); sabedoria, experiência (cágado).

 

Por: Fernando Tchacupomba

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