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Lingala e português – uma marca translingue no kikongo falado em M’Banza Kongo

Jornal OPaís por Jornal OPaís
1 de Abril, 2026
Em Opinião

M’ Banza Kongo, capital da província do Zaire e cidade patrimonial, faz fronteira com o município do Kuimba, de Luvu, o mais recente, e com a do Noqui, estes, por sua vez, fazem fronteira com a RDC, pontos que influenciam na entrada lícita, às vezes, ilícita dos cidadãos congoleses com destino a Luanda, bem como angola nos que decidem voltar para sua pátria. Trazem línguas (lingala, francês ou kikongo, para os angolanos e para congoleses do baixo Congo) e culturas das suas zonas de proveniência que, depois de se encontrarem no solo angolano, coabitam com as nossas.

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Mesmo lá na RDC, o LINGALA, língua da tribo Bangala, não é a mesma com aquele que, há meio século, era falado, pois, coabitando com francês, já carrega mar cas, termos, léxicos franceses e este fenómeno não origina nenhuma obstrução durante o processo comunicativo entre os congoleses, conquanto seja um país multilingue como Angola.

Em Angola, o português é a língua oficial, materna para alguns, de escolaridade, de cooperação ou contacto internacional, deste modo, ele coabita com as línguas de Angola desde a chegada do colonizador e, pelo tempo, já exerce uma forte influência nas línguas encontradas e vice-versa. Hodiernamente, o kikongo, sen do uma identidade etinolinguís tica Bakongo, coabita com o português, lingala —aquela que já sofreu influência da língua francesa.

Esta toda confluência linguística faz com que no falar actual, em M’banza Kongo, note-se enuncia dos que fogem da rigidez da língua local e uma forte presença da influência de lingala e português, embora haja famílias que preferem, nas suas casas, os seus filhos falarem lingala a kikongo no seu dia-a-dia e é mais um outro assunto que merece um estudo. Alguns por questões de prestígio ou pertencimento não preferem nem português nem kikongo como língua de contacto. Com muita frequência, até para os mais letrados, ouve-se um kikongo com as seguintes construções frásicas: a) Yaku “teya”, “mas” kawidiko (aconselhei-o, mas não escutou).

Na frase acima, as palavras entre aspas “ teya” pertence à língua lingala que significa, em português, ensinar, pregar ou aconselhar e “mas” conjunção coordenativa adversativa que, em Kikongo, é “nkasi”. b) Lu “meka” o kwenda( tentam ir!).

Há uma falsa ideia de que “meka “ que é, em português, tentam (for ma do verbo tentar) pertença à língua kikongo, mas, no dia a dia, é frequente ouvi-lo em detrimento de “teza”. c) “Depois” wu mvovesa! Em Kikongo, há advérbios, adjetivos, pronomes, preposições, conjunções, verbos tal como nas de mais línguas, todavia os constituintes portugueses estão muito presentes em várias construções frásicas de kikongo.

“Bosi[ bossí ]” é, em português, o senhor “ depois”. Em M’banza Kongo, é fácil ouvir, no falar hodierno, constituintes de lingala e os de português nu ma única frase e sem que haja uma mudança de código (code switing) tal como veremos na seguinte frase: “Neti” o zono ba “carregara” e nkuni.

Em lingala “ neti” é uma preposição ou uma conjugação subordinativa comparativa “como”, de pendendo da posição que toma dentro da frase e “carregara”, que já é português, substitui o verbo “ nata ou soka”.

Para além desta construção frásica, ainda ouve-se muitas outras que obedecem a esta regra e, com isso, a comunicação ainda flui sem obstrução na descodificação. O lingala, por carregar também marcas da língua francesa, serve como vetor para incorporação de alguns vocábulos franceses no kikongo, actualmente, falado não só em M’banza Kongo, bem como no Uige e Cabinda.

O translinguismo é presente e, ca da vez mais, está a ganhar um espaço consciente ou inconsciente mente no kikongo actual, pois, a certo ponto, entende-se que a própria língua, sendo um produto social tal como definido pelo Sausseure, abre janelas e portas para integração de novos elementos para o enriquecimento ou empo brecimento do seu léxico pela força dos seus falantes. Hoje, portanto, consegue-se afirmar que o lingala, aquele trans formado pelo francês, e o português são, sobretudo em M’banza Kongo e nas demais zonas fronteiriças, marcas translingue no kikongo.

Por: MSIMBA MIZIMU

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