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Contos D’outros Tempos: Os sete cornos e a caça pelo pastor vigarista – Vidas de Ninguém (IX)

Domingos Bentopor Domingos Bento
30 de Janeiro, 2026
Em Opinião
DR

DR

Quando os maridos das sete mulheres chegaram à igreja para agredir o Mano Pastor, por este engravidar as suas esposas, o indivíduo já tinha fugido três dias antes, depois de a notícia se espalhar no bairro sobre as suas malandrices. Irritados por terem sido chamados de cornos pelos miúdos do bairro, os sete maridos arrombaram a igreja e partiram tudo o que lá havia.

Num compartimento junto do altar encontraram preservativos usados, biquínis, sutiãs, restos de fios de cabelo, lingerie e outros objectos que indicavam a festa que o senhor Mano Pastor fazia com as crentes. É que as pessoas do bairro julgavam que aqueles gritos das irmãs, no interior da igreja, eram do poder da oração. Afinal, eram os gemidos dos apertos malcriados que o Mano Pastor fazia com as senhoras.

Os bebés com a cara do Mano Pastor, todos nguimbolas, orelhões, escuros e com dentes salientes, foram a prova de que as irmãs, afinal, não iam ajoelhar para Cristo Jesús, mas, sim, e tregavam a carne fraca para o abate abusivo, livre, à torta e à direita, daquele pastor, um cidadão da República Democrática do Congo que vivia no bairro há muitos anos.

Com o seu português arranhado, misturado com lingala, altura média, orelhão, tom de pele escuro e dentes salientes, Mano Pastor demonstrava ser um digno homem de Deus devido ao que pregava. Todas as pessoas do bairro acreditavam nas suas palavras e eram fiéis aos seus ensinamentos.

A igreja dele, que era de chapas velhas e barrotes de madeira, rapidamente se transformou num lugar acolhedor porque todos contribuíram para a sua edificação, acreditando que fosse uma coisa séria. Pela fé, os maridos deixavam as esposas frequentarem o local, até que um dia as mentiras caíram e ficou-se a saber que, mais do que uma igreja, aquilo era um prostíbulo.

Entretanto, quando o Dibika proibia a sua mulher de frequentar aquele templo, toda a gente o criticava. Diziam que ele era ciumento e que estava, por pirraça, a criar confusão com o servo de Deus. Contas feitas, ele tinha razão em proibir a sua amada mana Isabel de frequentar a igreja, porque seria também o próximo a criar o filho do pastor em casa, a pensar que fosse seu, como aconteceu com o Dilonga, que vivia na rua do Tungonó.

Ele foi também teimoso. Até deixava a mulher, a mana Zita, passar a noite na igreja com o argumento de que estava na vigília. A tal vigília, afinal, era de se esfregar a noite inteira com o Mano Pastor. O resultado foi o bebé nguimbola que ela estava a tentar fazer passar como sendo filho do Dilonga, mas deu-se mal, porque foi descoberta durante a confusão que teve com a Lesinha.

As duas eram muito ligadas e estavam sempre na igreja. Muitas vezes, inclusive, deixavam de tratar dos maridos e das casas para cuidarem da igreja e do Mano Pastor. Mas quando as comadres se zangaram é que foram reveladas as verdades: afinal, as duas também passaram pela vara do Mano Pastor que, depois de ser descoberto, ficou-se a saber que já tinha esse hábito há muitos anos.

Em todos os bairros por onde passava tinha sempre a fama de namorar com as crentes. Por isso é que não conseguia estabelecer-se numa zona fixa, porque era sempre perseguido. Por causa desse comportamento, já lhe lançaram pragas, atiraram tala, foi agredido e até escapou de uma rajada de tiros. Mesmo assim, não mudava. Diziam que hipnotizava as senhoras com feitiço que tinha.

Mas depois ficou-se a saber que era mesmo só o papo que ele usava que deixava as senhoras nuas e entregues aos seus prazeres insaciáveis, desejos ardentes, corpos colados que geravam gravidezes do pecado, como as das sete mulheres, o que gerou grande confusão no bairro. — Nem tudo o que brilha é ouro, seus boelos.

Nunca ouviram dizer que maldito é o homem que confia noutro homem? Nem sei como é que vocês acreditavam naquele langa com cara de bruxo — abusava o kota Mabuia, com o seu copo de vinho na mão, sentado no portão, a assistir à fúria dos sete maridos que derrubavam a igreja abaixo.

— Mas, mano Mabuia, você mesmo que bebe comigo, anda comigo, vias tudo a acontecer e nunca me disseste que esse filho da p… do pastor andava com a minha esposa. Agora vê só como estou destruído… Possas, agora assim a minha vida está destruída.

Como vou fazer com esse filho que eu pensava que fosse meu? Afinal é desse bruxo — desabafava o Kotingui, cuja mulher, tia Dona, senhora de respeito, com quem vivia há 33 anos, também engravidou do Mano Pastor. Ela frequentava a igreja porque dizia que ia buscar bênção para o próprio kota Kotingui, que estava desempregado há dois anos. Afinal, por detrás das súplicas e orações, fazia aquelas coisas sujas de tirar a roupa e se esfregar com o pastor até engravidar.

No bairro, os filhos começaram a ser motivo de insultos e chacotas, porque a mãe traiu o pai com o pastor, que até ia jantar a casa quando na igreja faltava comida. — Se eu soubesse, sempre vem tarde. Maldita hora em que aceitei a minha mulher entrar nessa igreja.

Eu vou matar esse pastor quando me cruzar com ele — gritava de raiva o vizinho Lelo, com uma picareta nas mãos, empoei- rado e com o rosto abalado. A es- posa dele também passou na brasa que ardia incessante debaixo das calças do Mano Pastor. — Mas agora assim estão a acabar a raiva nas paredes, como se elas é que tivessem engravidado as mulheres deles. Olha só, cornos de uma figa.

Mesmo assim nem deviam meter-se com o senhor pastor, porque as mulheres deles são todas adultas e sabiam o que estavam a fazer. Se provaram é porque gostaram — cochichavam, na ponta da rua, as vizinhas Jú e Quinha, quando iam deitar o lixo e se avistaram com toda a confusão que agitava o bairro, até chegar a polícia, que levou os sete maridos à cadeia por invasão e destruição de património privado.

— Já lhes comeram as mboas do biva, agora terão de pagar cumbú para serem soltos. Viver no bairro é drena, yah — comentava o puto Patilson, tido como o mais liambeiro do bairro, enquanto via os sete maridos a serem levados na patrulha da polícia.

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