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OPAÍS

CONTOS D’OUTROS TEMPOS: O dia em que Nelinha foi a custo zero – Vidas de Ninguém (VIII)

Domingos Bentopor Domingos Bento
23 de Janeiro, 2026
Em Opinião

Tudo estava posto para, na semana seguinte, a família receber o noivo da Nelinha, quando o tio Chivinda disse, durante a reunião familiar, que ela poderia ir a custo zero. «Mas como assim?», questionou a Mana Tina, irmã mais velha do tio Chivinda, que, na qualidade de tia, ficou espantada com o gesto do irmão.

Sentado ao lado do portão principal, de calça jeans gasta, camisola branca, chapéu na cabeça, cara trancada e olhando fixamente para as pessoas à volta do quintal, tio Chivinda voltou a afirmar, categoricamente, que não queria mais receber nenhum dote que viesse do novo noivo da Nelinha por esta fazer envergonhar a família constantemente. «Possas, uma filha que criamos não pode nos trazer quatro alambamentos em casa.

Dos três homens que vieram bater à nossa porta, ninguém colou. Acham mesmo que esse que está a vir é que vai ficar com ela?», questionou o mais velho com a voz possante e visivelmente agastado. Aos 31 anos de idade, para além da gravidez que carregava, Nelinha já tinha outros seis filhos, com três moços do bairro, sendo que nenhum ficou com ela. Entretanto, com o primeiro noivo fez três filhos.

Terminaram a relação porque, numa discussão de casal, a Nelinha disparatou as coisas debaixo da mãe do moço. Com o segundo marido, com quem fez dois filhos, foi expulsa do lar porque era muito rabugenta e agressiva. Durante uma briga que tiveram, Nelinha cafricou o marido e só o largou quando as irmãs do moço foram por cima dela e arrastaram-na até à porta.

Depois de sair do cafrique, o moço jurou, de pés juntos, nunca mais ver a cara da Nelinha. Já com o terceiro marido, a relação acabou por causa da fofoca e bebedeira. Inclusive, a ruptura aconteceu quando, num certo dia, enquanto a panela estava no fogo, ela havia saído e foi se embebedar com a sua amiga Paula, que também era quarentona solteira. Naquele dia, a panela ferveu até ao ponto de queimar o refogado todo da carne que o esposo havia comprado no talho do Bakary, um cidadão do Mali, que vendia de tudo um pouco no seu estabelecimento.

Diziam que, inclusive, a Nelinha já tinha um caso com ele em troca de leite, bolachas e coxa de frango. No bairro já se falava, também, à boca pequena, que ele era portador de HIV/SIDA e autor da gravidez da Nelinha. Agastado com tudo, para não se comprometer com o dote do quarto genro que estava a caminho, tio Chivinda não quis receber mais nada. Tudo que ele queria é que a filha fosse a custo zero para evitar vergonha novamente. «Estou cansado.

Na rua só ando já de cara baixa porque as pessoas me chamam de pai do sistema. Pensam que eu é que ando mandando essa ‘bicha’ da Nelinha arranjar muitos maridos para me sustentarem. Eu sou capitão na reforma e não preciso de nenhum desses mijões que ela arranja», gritava o mais velho, de 73 anos de idade, enquanto exibia o passe velho de antigos combatentes que estava guardado a sete-chaves na pasta de documentos.

Mana Filó, mulher do tio Chivinda, ainda tentou fazer entender o marido e apelou à calma para não fazer envergonhar a Nelinha, que estava encostada no canto da parede, de cara baixa, tranças viradas na cabeça e coberta com um pano que cobria o peito até o joelho, dificultando, assim, a visibilidade da barriga que já contava com seis meses de gestação. «Agora, assim, vamos então fazer como? Ela já errou mesmo. Só devemos encontrar a solução e parar de criticá-la», refutou a Mana Filó, olhando fixamente ao marido que não recuava na decisão. «Mano Chivinda, você também tem que ter mais calma. Esse tempo agora está assim, não dá para ligar muito.

Se você meter muito o coração nessas miúdas, não vai ver os teus netos crescerem. É melhor ficar só calmo», apelou a mana Tina, na tentativa de aconselhar o irmão que mostrava dureza. No seu canto, com a intenção de acalmar o tio, segurando uma garrafa de Cuca na mão, cujo líquido já estava abaixo do meio, o Molusco, tido como o sobrinho mais mulherengo da família que, aos 25 anos, já tinha feito filhos com oito mulheres diferentes, pediu à família que se acalmasse. Mal terminou de falar, a situação não caiu bem para a Mana Tina, que já andava irritada com a vida irresponsável do Molusco. «É, xeeeé, Molusco, você é melhor mesmo calar essa boca aí.

Estás aqui a falar fioco, fioco, fioco; por acaso você assumiu a tonelada de filhos que fizeste com as kiwaias do bairro Alto?», disparou a senhora. «Oh, Mana Tina e o Molusco, vamos ainda resolver esse problema da Nelinha. Não vamos misturar as coisas», sugeriu a prima Avozinha, que estava em pé na mesa que ficava no centro do quintal, a servir o almoço de funge misto com molho de calulú e feijão de óleo de palma. «Avozinha, o molho também tem muito sal. Esse vosso tio Chivinda, que já está alterado, essa comida vai fazer disparar a tensão dele e as coisas podem-se complicar ainda mais.

Possas, moças bem finas na rua, afinal não sabem cozinhar em condições, erreh, até é vergonhoso», reclamou a Tia Filó, enquanto saboreava o calulú feito pela sobrinha.

Segurando o seu prato de comida numa bandeja, o copo de vinho pousado por cima de uma metade de bloco que estava ao lado do pé direito, antes mesmo de dar a primeira garfada, tio Chivinda disse que depois do almoço já ninguém mais poderia tocar no assunto e que a decisão já estava tomada. «Só se ela não saiu da minha coluna, mas aqui na minha casa já não haverá mais alambamento da Nelinha.

Levem o recado aos primos Santos, Malengó e ao cunhado Caterça. Não se pode reunir os mais velhos quatro vezes para alambar uma filha. Isso é abuso, pah», vingou. «Eh, eh, eh, avó Chivinda é complicado, yah. Mas tem embora então mesmo razão dele. Essa Nelinha não ouve, deixa. Toda hora arranjar marido, tipo está praguejada», cochichavam no canto as netas Sambita e Lolinha, que assistiam silenciosamente à reunião familiar.

De repente, o rádio à pilha, que estava em cima do muro, parou de tocar por falta de sinal. Pelos céus nublados caíam serenos. Algumas pessoas entraram rapidamente para a sala, evitando que fossem molhadas. Outras começaram a se despedir. Mas todos foram com o recado do tio Chivinda de que, na semana seguinte, a Nelinha seria entregue a custo zero em casa do seu noivo.

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