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OPAÍS

Carta do leitor: A fé como um negócio altamente lucrativo

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
7 de Setembro, 2026
Em Opinião

Saudações, caro coordenador! É com enorme satisfação que escrevo para este jornal. A paisagem urbana de Luanda transformou-se radicalmente nas últimas décadas. Em praticamente todos os bairros do centro histórico às periferias em constante expansão, o cenário repete-se: garagens convertidas, armazéns adaptados, terrenos baldios ocupados e edificações imponentes ostentando placas de novas denominações religiosas.

A proliferação desenfreada de igrejas na capital angolana deixou de ser apenas um fenómeno de fé para se tornar um complexo desafio social. Olhe que não está em causa a importância da igreja, no entanto, reflecte comigo! É fundamental reconhecer o papel que as instituições religiosas desempenham na sociedade. Pois, em locais onde a presença do Estado se faz sentir de forma ténue, a igreja surge frequentemente como o único refúgio.

Oferece apoio espiritual, solidariedade, redes de entreajuda e, em muitos casos, assistência social básica. Para uma população que enfrenta diariamente imensos problemas, a fé é uma ferramenta indispensável de resiliência e esperança.

Por outro lado, não se pode ignorar o lado sombrio desta expansão desregrada. A linha que separa a genuína vocação pastoral do mercantilismo religioso tornou- se perigosa. Assiste-se, com frequência, à exploração da fragilidade emocional e financeira de cidadãos desesperados por soluções milagrosas para problemas estruturais, como a pobreza e a doença. Desta forma, a fé transforma-se num negócio altamente lucrativo para alguns, em detrimento do sustento de famílias já vulneráveis.

Além disso, o fenómeno gera impactos directos na qualidade de vida dos luandenses. A poluição sonora é talvez o problema mais imediato: cultos ruidosos que violam o direito ao descanso e à tranquilidade. A somar a isto, está a ausência de condições sanitárias adequadas em muitos destes espaços de cultos improvisados. Para mim, a questão não passa por restringir a liberdade de culto ou de religião, garantida pela Constituição, pois somos um país laico.

O verdadeiro desafio reside na regulação e fiscalização eficazes. O Estado precisa actuar com firmeza na aplicação das leis e no controlo do cumprimento dos requisitos legais para o funcionamento de confissões religiosas.

POR: Miguel Senga/Luanda

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