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Alteridades e identidades: um olhar literário em Nga Mutúri e em Mestre Tamoda

Jornal Opais por Jornal Opais
8 de Maio, 2023
Em Opinião

Nga Mutúri (de Alfredo Troni) e Mestre Tamoda (de Uanhenga Xitu) São duas obras magnas e referências obrigatórias da Literatura angolana.

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Ambas as obras são costumeiras, porquanto tanto Troni quanto Xitu versam sobre os costumes sociais das sociedades das suas respectivas épocas.

Periodicamente falando, Nga Mutúri enquadra-se no segundo período da Literatura angolana (1849 – 1902).

O conto Mestre Tamoda pode ser copulado ao sexto período da Literatura angolana (1972 – 1980), pois é nesse período que assiste a um crescente espírito crítico, nacionalista e patriótico.

Lidas contrastivamente é possível ver-se um olhar atento de seus escritores, que não perdem de vista os detalhes do modus vivendis da época e sobretudo um olhar crítico que lançam sobre os costumes e os hábitos sociais da época.

Alfredo Troni e Uanhenga Xitu revestem-se duma linguagem satírica ou mesmo vestindo a túnica da sátira trazem à vida contemporânea duras e pesadas críticas da vida canónica e peculiar da época.

Em Nga Mutúri e em Mestre Tamoda, os autores das respectivas obras levantam a questão da alteridade humana e a consequente perda da identidade social e pessoal, em fim, a perda do valor do muntu enquanto espírito da ancestralidade e da identidade do lugar humano no mundo, de outra maneira dizendo, a fuga do ser, o desligamento do cordão umbilical com a força conservadora da ancestralidade para coligar-se a protótipos culturais alheios, ou seja, passa-se a viver o outro cultural e se estigmatiza os valores da cultura a que se pertence.

Alfredo Troni, em Nga Mutúri, histórico e sociologicamente, traz à tona os hábitos, tradições e costumes sociais da sociedade luandense oitocentista e novecentista.

Através da personagem Nga Mutúri, ateia o debate em torno da metamorfose social, ou seja, a alteridade, fenómeno constante da época.

Nga Mutúri representa o protótipo da mudança da mulher da época, pois quando a mulher daquela época pudesse ascender socialmente, mudava-se complemente, esquecendo-se das suas origens, assim, esquecia a língua de origem, os valores culturais e até detestava a cor negra da pele que revestia o seu corpo.

A crítica social de Alfredo Troni reside no facto dessa mudança, muitas vezes, prejudicar, irromper ou constituir um hiato com os valores sociais do berço, visto que Mutúri, durante a permuta de escreva para patroa e para dona de um património, menospreza o sagrado, a força que a une à ancestralidade, aos valores e aos traços culturais das raízes da cultura negra.

Já, por outro lado, Uanhenga Xitu trará a personagem Mestre Tamoda e consequentemente nome que confere título à obra. Xitu apresenta o modelo jovem da população colonial rural angolana.

Por meio de Tamoda, o autor faz uma crítica a alteridade juvenil, porquanto apresenta a vida de um jovem que se desloca de Catete a Luanda em busca de melhores condições de vida, mas que ao seu regresso a Catete, emprega desadequadamente as expressões dicionaristas aprendidas em Luanda, em casa do patrão.

Por consequência, Uanhenga Xitu, revestido de uma linguagem simples e desprovida de austeridade, chama à razão a sociedade a respeito da inadequação contextual do uso da língua, outrossim, da alteridade descontextual, consequentemente, causadora da perda da identidade.

Por meio das obras Nga Mutúri e Mestre Tamoda é possível constatar às claras o tema da alteridade e da identidade, a alteridade é um elemento obrigatório e ao qual ninguém se pode furtar, pois o ser humano é um ser em perpetua metamorfose, no entanto a crítica de Nga Mutúri e de Mestre Tamoda incide na negação do Muntu, o valor da alma e da força da cultura africana, porque quando se perde de vista o centro do muntu, perdese sempiternamente a ligação com a ancestralidade, a identidade da pátria mater, a rede que coliga à ancestralidade, por conseguinte, perde-se a ligação com o transcendental, o divino.

 

Por: ALCINO LUZ

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