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OPAÍS

Alomorfia como variação coadjuvante ao processo eufónico das palavras

Jornal Opaispor Jornal Opais
30 de Agosto, 2024
Em Opinião

Para adentrarmos no assunto, urgenos ressaltar, em primeira instância, que uma palavra é constituída de unidades formais menores associadas e dotadas de significado, denominadas por morfemas. A título exemplificativo, a palavra felicidade tem duas partes ou unidades, nomeadamente felic (a base da palavra, o morfema lexical) e idade (elemento criador de novas palavras, o morfema derivacional).

Solidificando a abordagem acima, Nida (1962, p. 11), citado por Monteiro (2002, p.13), também defende que os morfemas são as menores unidades significativas que podem constituir vocábulos ou partes de vocábulos. Parafraseando o exposto, o morfema pode ser compreendido como a menor unidade significativa, de significado gramatical ou lexical, de que se compõem as palavras.

Para tanto, os morfemas nem sempre têm a mesma forma, de modo que nem sempre é possível identificar o mesmo morfema nos seus diversos contextos de uso, como no caso do in nas palavras infeliz e irregular. Em resumo, o termo morfema refere-se a urna entidade de pendor abstracto, não inserido ainda nas palavras.

Quando se concretiza, passando a fazer parte da estrutura de uma determinada palavra, é denominado por morfe. Convém-nos, por ora, destcar que quando há mais de um elemento ou morfe para o mesmo morfema, ocorre o processo da alomorfia nas palavras. Para melhores esclarecimentos, vamos ao que dizem Silva e Koch (1991, p.21) a respeito: Os diferentes morfemas de uma língua não estão obrigatoriamente ligados a um segmento fónico imutável: por exemplo, o segmento /-s/ marca, de modo geral, o plural dos nomes em português, mas outros segmentos como /-es/ têm essa mesma função.

Do mesmo modo, /-ria/, que marca o futuro do pretérito, tem uma variante /-rie/. Também os morfemas lexicais apresentam variantes: /ordem/, /orden-/, ordin-/ têm a mesma significação em ordem, ordenar e ordinário, respectivamente. A essa possibilidade de variação de cada forma mínima dá-se o nome de alomorfia. Resumindo, alomorfes ou alomorfias são as diversas realizações de um único morfe¬ma, ou vários morfes.

O verbo caber, por exemplo, apresenta um morfe¬ma básico ou nuclear que se realiza concretamente nos alomorfes [cab], [caib], [coub]. Ainda, em vida e vital, o morfema básico realiza-se nos alomorfes [vid] e [vit]. No entanto, um morfema comporta-se de diferentes maneiras nos seus mais variados contextos de uso, assumindo uma identidade fónica distinta.

Ora, enquanto variação de morfemas para que as palavras sejam devidamente pronunciadas, apresentamos, a seguir, alguns tipos de alomorfia, nos quais se percebe facilmente a identidade de sentido entre as formas aparentadas. 1. Alomorfia na raiz lei / legal =» [le] ~ [leg] carvão / carbonífero =» [carvã] ~ [carbon] cabelo / capilar =» [cabel] ~ [capil] noite / nocturno =» [noit] ~ [noct] Os exemplos acima demonstram que as raízes ou os radicais de determinadas palavras podem assumir formas diferentes, a depender do contexto em que se encontram representados.

2. Alomorfia no prefixo incapaz/ irregular =» [in] ~ [i] aposto / adjunto =» [a] ~ [ad] subaquático / soterrar =» [sub] ~ [so] O morfema in- é usado em português para negar o conteúdo da palavra que está ao lado. Neste âmbito, aparece também uma outra forma, como acima exemplificada, usada nos mesmos contextos discursivos, que é bem parecida, mas não é idêntica: a forma é i-. Isso acontece, de igual modo, com demais morfemas prefixais.

3. Alomorfia no sufixo durável / durabilidade =» [vel] ~ [bil] cabrito / amorzito =» [ito] ~ [zito] facílimo / elegantérrimo =» [imo] ~ [érrimo] livrinho / pauzinho =» [inho] ~  [zinho] Estes sufixos, elementos que aparecem após o radical, vão ganhando diversas formas de representação nas palavras, resultando na alomorfia sufixal. 4. Alomorfia na vogal temática corremos / corrido =» [e] ~ [i] peão / peões =» [o] ~ [e] menino / menina =» [o] ~ [Ø] mar / mares =» [Ø] ~ [e] As vogais temáticas das palavras acima passaram a ser representadas de diferentes formas devido ao contexto de usdo de cada uma delas; em tempos, modos e números, para os verbos, e em número plural, para os nomes.

5. Alomorfia na desinência nominal do género menino / avô =» [Ø] ~ [ô] menina / avó =» [a] ~ [ó] Nota: No par avô ≠ avó, os traços distintivos [ô] e [ó] podem ser considerados alomorfes das desinências [Ø] (mascu¬lino) e [a] feminino. 6. Alomorfes na desinência verbal estudávamos / estudáveis → [va] ~ [ve] cantarás / cantaremos =» [ra] ~ [re] escreves / escreveste =» [s] ~ [ste] falo / estou =» [o] ~ [ou] Nesta última alomorfia, as desinências verbais sofreram alterações nas suas representações em modo, tempo, número e pessoa, conforme nos exemplos apresentados.

Assim sendo, todo morfema apresenta, pois, uma forma e um significado que, em determinados contextos, ocorrem variações na forma sem que o morfema deixe de ser o mesmo, a fim de que haja eufonia, isto é, um bom som na língua, por meio da associação de constituintes ao radical da palavra.

POR:FELICIANO ANTÓNIO DE CASTRO

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