Na verdade, a música surge como expressão não só artística como cultural, de caráteridentitário, que não apenas partilha com outras culturas o saber-fazer literário, como o faz contextualizada no lugar e no tempo, dando origem a exemplares que são os textos literários.
Adentrando na temática, a música de Florêncio Handanga, no mosaico artístico angolano, é fruto de sucessivos encontros em que a memória, ancestralidade e a literatura entrelaçam-se no dialogo profundo, em outras palavras, ela é a forma de acumular e transmitir os conheci mentos sobre a história do povo.
Como observado por Said (1978, p. 112), “a literatura e as artes (música) são formas de expressão que permitem às comunidades reafirmarem sua dignidade e resistirem à homogeneização cultural”.
Ainda, analisando a música em epigrafe, percebe-se que contribui para o entendimento da literatura angolana enquanto veículo de resgate e preservação da identidade cultural, além de valorizar, com maior predominância, a riqueza linguística da língua umbundu.
Nesta mú sica, há muitos aspectos que des pertam a sensibilidade do ouvinte e dentre eles temos a destacar três entidades/sujeitos: mulher/mãe homem/pai-Deus. Estes são constantemente referenciados ao longo da música e isto comprova a estrofe seguinte: Mãe opo yo Wa tuilika onjila tupita Papá kilu opo yo wakatunga onjo tukakala yesu kilu opo yo wavangula ati amolange kwen di ñgo cossi eci upita ndeti suku okacite tulula Ora, primeiro temos a mãe, esta posição mostra o seu valor na cultura angolana, pois ela representa o sagrado.
A este respeito, a tradição africana, parafraseando o pensa mento de Padilha, sacraliza a mulher como um laboratório sagrado onde se processa a permanência dos ancestrais”.
Com isso, é possível observar que a imagem da mulher aparece na música como responsável por transmitir o saber as muitas vozes e a relação dos vivos com os antepassados. Assim, a mulher é vista como uma representação da luz, sagrado, e caminho, entretanto, ao homem, cabe a força e a Deus, a autoridade.
Por: JOÃO BAPTISTA CUNHA







