Há uma máxima antiga, atribuída ao mé dico e filósofo Paracelso, que nos recorda que há um sol que todos podem ver, mas aqueles que são cegos, não podendo vê-lo, podem sentir o seu calor. Na linguagem corrente da estratégia, essa ideia foi resumida numa frase simples: se não podes fazê-lo ver o sol, fá-lo sentir o calor. Esta metáfora, de aparente simplicidade, encerra um dos princípios mais actuais da segurança na Região dos Grandes Lagos. Durante muito tempo, pensámos a paz essencialmente como um exercício de esclarecimento.
Bastaria mostrar o sol: explicar o Direito Internacional, invocar os Acordos, apelar à boa vizinhança e ao espírito da Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos (CIRGL). Acreditámos que a razão da luz seria suficiente.
A realidade do terreno, do Leste da República Democrática do Congo à dramática situação no Sudão, tem demonstrado que existem actores que, por opção, se recusam a ver a luz. Perante esses, o apelo não basta. É necessário que se sinta o calor da responsabilidade, da verificação e da consequência.
O que significa, na prática, fazer sentir o calor? No domínio da Defesa, fazer sentir o calor não é sinónimo de belicismo. É sinónimo de credibilidade. E a credibilidade assenta em três pilares que temos procurado consolidar. O primeiro pilar é a vontade política clara e constante.
Quando os países da região afirmam que não aceitam a alteração de fronteiras pela força, ou que condenam o apoio externo a grupos armados, essa posição não varia ao sabor das circunstâncias. Essa constância é, em si, uma forma de calor. Transmite previsibilidade aos amigos e custo aos que violam. O segundo pilar é a capacidade operacional real.
É aqui que ganham sentido os mecanismos que construímos colectivamente. O Mecanismo Conjunto de Verificação Alargado (MCVA) e o MCVA+ não são simples estruturas de observação. Quando dota dos de meios técnicos adequados, como vigilância electrónica e perícia balística, e quando lhes é garantido acesso irrestrito, deixam de ser apenas testemunhas e passam a ser factores de dissuasão. Sabem que, se violar, será visto e registado.
O terceiro pilar é a presença preventiva. O Sistema de Alerta e Resposta Prévia (SAPRC), com as Salas de Situação em Goma, Bujumbura e Lusaka, cuja operacionalização foi saudada em Lusaka, representa exactamente isso: a capacidade de ver primeiro, para poder agir antes que o foco de tensão se trans forme em incêndio generalizado.
A lição que nos deixa Lusaka A Reunião Ordinária dos Ministros da Defesa da Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos, realizada em Lusaka, República da Zâmbia, nos dias 15 e 16 de Outubro de 2026, sob a presidência da República Demo crática do Congo, foi reveladora.
Por: ALBERTO KIZUA








