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OPAÍS

A lição sempre actual de Amílcar Cabral: o guineense que ajudou a fundar o MPLA

Paulo Sérgiopor Paulo Sérgio
12 de Dezembro, 2025
Em Opinião

Há dias, uma amiga, leitora fiel destas crónicas semanais no jornal OPAÍS, lançou-me um desafio: não terminar o ano sem revisitar o contributo de Amílcar Cabral na fundação do MPLA. A académica e militante desse partido, que completou esta semana 69 anos de existência, dos quais 50 como suporte do Executivo angolano, justificou a proposta com uma frase que ficou a ecoar: “Não se pode apagar os fragmentos da vida de Cabral que estão entranhados na história dos movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas em África”.

A verdade é que, mesmo que o tema não tivesse sido sugerido, cedo ou tarde regressaria a Cabral. A sua presença é recorrente nas obras que retratam a formação dos movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas, surgindo ao lado de nomes como Lúcio Lara, Viriato da Cruz, Mário Pinto de Andrade, Marcelino dos Santos e Agostinho Neto e outras figuras que animaram iniciativas políticas e culturais contra o colonialismo, dentro e fora de África.

Aliás, quem se propõe compreender o percurso de Viriato da Cruz (poeta e dirigente político angolano que já mereceu análise neste espaço) acaba inevitavelmente por reencontrar Cabral logo no primeiro parágrafo de Obra Máxima II, em que Nelson Pestana aproxima ambos.

O cientista político esclarece, inclusive, que Cabral só não é classificado como “personalidade dominante” devido ao preconceito que impede muitos de verem, nos líderes dos movimentos de libertação e nos primeiros estadistas africanos, figuras de dimensão universal. Para entender a relação histórica entre este homem (nascido em 1924, por um “acidente de percurso”, na antiga Guiné Portuguesa, filho de cabo-verdianos que emigraram em busca de melhores dias) e o MPLA, é preciso recuar aos anos 40 do século XX, com Lisboa como ponto de partida.

Cabral insere-se então num grupo de bolseiros de Angola, São Tomé, Guiné-Bissau e Moçambique que encontraria na célebre Casa dos Estudantes do Império (CEI), um refúgio intelectual e um laboratório de consciência política. Hélder Martins, antigo estudante, descreve, na obra “Casa dos Estudantes do Império: subsídios para a história do seu período mais decisivo (1953 a 1961)”, o ambiente efervescente em que se forjou a consciência nacionalista de muitos destes jovens. Ali se fazia crítica à ditadura e ao sistema colonial, mas também se celebravam e estudavam as culturas dos povos subjugados.

Foi nesse ambiente que Cabral privou de perto com Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade, Lúcio Lara, Alda Lara, Alda e Julieta do Espírito Santo, Marcelino dos Santos, entre outros. Daí nasceram cumplicidades intelectuais e literárias, como a fundação do Centro de Estudantes Africanos. Quando chega a Angola em 1955, um ano antes da data oficial da fundação do MPLA, Cabral vem como engenheiro-agrónomo, movido por desejo de contribuir para o desenvolvimento agrícola. Porém, já era antifascista convicto, mas ainda sem intenção declarada de integrar ou liderar um movimento clandestino.

Segundo Nelson Pestana, essa predisposição amadurece em Angola, sobretudo pelo contacto com Viriato da Cruz, que o influencia decisivamente e passou a desempenhar um papel relevante no despertar das consciências e na luta de libertação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Essa opinião é sustentada com base na descrição feita pelo pesquisador cabo-verdiano Daniel dos Santos que, numa biografia, ao estudar a trajectória política de Cabral, divide-a em três fases e situa a “fase de revolta” logo após a sua passagem por Angola.

De regresso à Guiné, em 1956, Cabral já era outro homem, isto é, um nacionalista decidido, idealizador de uma África emancipada. E foi precisamente nesse ano que paricipou na estruturação do Manifesto de 1956, documento basilar para a fundação do MPLA, antes de regressar ao seu país para fundar o PAIGC. O seu currículo profissional em Angola começa como quadro dos Serviços do Centro de Investigação Agronómica.

O seu profissionalismo levou-o a ingressar na empresa agrícola CADA, no Cuanza Sul, e mais tarde, mudaria para a Fazenda Cassequel, na Catumbela (em Benguela), e depois para a Fazenda Tentativa, em Caxito, onde ainda hoje subsiste, em ruínas, a casa onde viveu. Esse percurso como engenheiro e investigador serviu também para dissimular, aos olhos da administração colonial e da temível PIDE, as suas ligações políticas clandestinas.

A historiadora Rosa Cruz e Silva testemunha, na obra “Desafios Contemporâneos da África: o legado de Amílcar Cabral”, que, onde quer que estivesse, procurava reunir-se com os companheiros da causa revolucionária. Como tantos que trilharam o mesmo caminho, enfrentou dificuldades e privações, mas não desistiu e deixou as suas impressões digitais na elaboração do Manifesto de 1956, que viria a sustentar a fundação do MPLA.

No mesmo ano, já de regresso à Guiné, fundou o PAIGC. Treze anos depois, em 1969, já líder incontornável da luta armada na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, Cabral recordaria esse período de risco durante um seminário do PAIGC: “Nós mesmos corremos riscos em Angola, em reuniões clandestinas. No momento em que vários angolanos estavam presos pela PIDE, foi preciso ir a Angola fazer reuniões.

Arranjámos contrato como agrónomo e fomos para Angola aproveitar reunir camaradas, para discutir o novo caminho que devíamos seguir todos na luta pelas nossas terras.” Por ironia, o destino foi cruel, visto que Cabral não viveu para ver o seu país independente, pois foi assassinado em 1973. Mas a sua lição permanece actual e, talvez, hoje mais actual.

O académico Carlos Lopes recorda, na obra supra citada, uma das frases que melhor condensam o pensamento de Cabral: as pessoas não lutam por ideias abstractas, nem por sonhos que estão na cabeça de outros. Lutam por coisas concretas: pela paz, pela melhoria da vida e pelo futuro dos seus filhos. Por isso insistia que “liberdade”, “fraternidade” e “igualdade” são palavras vazias quando não se traduzem em melhorias reais na vida das pessoas.

A sua lição sempre actual é justamente esta: a libertação não é um acto simbólico, nem apenas político; é uma prática quotidiana de dignidade. E a história de Angola, tal como a de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, carrega ainda hoje a marca profunda desse guineense que ajudou a fundar o MPLA e a redefinir o sentido de ser africano.

Jornalista

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