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OPAÍS

A imposição da linguagem neutra e a pseudonecessidade de inclusão

Jornal Opaispor Jornal Opais
20 de Outubro, 2023
Em Opinião

Não reconhecer que o mundo está em constantes tranformações em todos os níveis demonstraria uma visão distante dos factos que ocorrem amíude.

Tais transformações não se reduzem a apenas as questões relativas ao ecossistema, ao ambiente, mas também aos aspectos não materias como a cultura ou mesmo a língua, se quisermos.

Com efeito, a criação da aldeia global ou a sociedade planetária facilita o surgimento destas mudanças, visto que acontece o processo de assimilação da cultura daqueles Estados que se reduzem a consumir produtos estrangeiros, assumindo, assim, embora de uma maneira mais demorada a cultura doutro povo.

Entretanto, não é disso que se quer focar sob pena de se ser malentendido o que se quer apresentar por meio desta reflexão.

No caso de Angola, um dos estados que mais influencia culturalmente é o Brasil, por isso, importa estudar determinados fenómenos que lá se radicam, porquanto têm facilidade de chegar àquele país da África Austral que mantém uma relação histórica com esse Estado sul-americano.

Logo, estudar determinados fenómenos culturais que ocorrem no país do Samba é antever possíveis problemas por causa da forma como os angolanos consumem a cultura brasileira.

E nos últimos tempos, os media brasileiros têm debatido com alguma frequência acerca do fenómeno linguagem neutra e o processo de inserção de comunidades LGBTQI+, que vai crescendo cada vez mais e entende que a morfologia da língua portuguesa é segregadora e, portanto, contribui para o preconceito aos membros desta comunidade, daí a tentativa de desconstruir o paradigma da variação em género (masculino e femenino) e a este acrecentar a neutralidade, uma vez que há nas sociedades hodiernas indivíduos que não se sentem masculinos ou femininos, o que, a nosso ver, se trata de um mal entendimento da morfologia da língua.

Cada vez mais esta posição vai popularizando-se entre os falantes que pertencem nesta comunidade. Lembra-se aqui, por exemplo, daquela personagem que participou no reality show brasileiro A FAZENDA, que deixou uma outra personagem, heterosexual, não muito confortável ao afirmar veementemente « -aqui não há todos, mas sim todes».

Na visão deste integrante da comunidade LGBTQI+, todes, seria uma expressão que identifica todos aqueles indivíduos que não se consideram masculinos ou femininos.

Além deste termo, teríamos outros, por exemplo, elu ou ile no lugar de ele/a, ou ainda filhe, amigue, professories, irmane, etc., trata-se, na verdade, de um tipo de linguagem que não entende o género como uma realidade binária, destruíndo, assim, a maneira tradicional que se tem cultivando sobre isto ao longo dos séculos.

Entretanto, é necessário que se perceba que a questão do género neutro não é praticamente uma novidade nas línguas latinas, visto que o latim possuia.

Como já se sabe, o português é uma língua novilatina e herdou da sua mãe várias características, no entanto a neutralidade do género (não pelo motivo aludido por estas comunidades) não quis fazer parte deste conjunto de idiosincrasias herdadas do latim, contudo não é a língua de Luandino Viera a única filha do latim que abandonou a neutralidade dos géneros que segundo alguns filólogos desapareceu no latim bárbaro.

Nestes tempos, com o advento destas comunidades temos vindo um renascer do desejo de se criar na nossa língua um género neutro, embora que de modo artificial e impositivo, demonstrando uma forte ignorância aos assuntos atinentes ao dado linguístico, pois a nossa língua é natural e como tal as suas alterações ocorrem também de forma mais natural, dito de outro modo, o signo linguístico além de arbitrário, ele passa igualmente por uma certa convenção e não passando por este crivo, é decerto uma ingenuidade pensar-se que vincará, logo não é possível mudar a língua, acrescentando elementos artificiais sem o consenso de todos que as falam.

E para os menos entendidos em assuntos relactivos à língua, saiba-se que é por esta mesma razão que que aquela língua criada por Zamenhof com objectivo de unir toda humanidade num idioma, o Esperanto (uma língua artificial), não vincou entre os seres humanos.

Deve-se pensar que esta comunidade tem todo o direito de reclamar por inclusão na sociedade, entretanto erra assaz quando entende que se pode conseguir isso alterando o signo linguístico e o processo da inclusão nesta perspectiva não estaria na língua, mas sim no modo como as pessoas encaram este fenómeno, se bem que a língua é um elemento sine quam non na formação da cosmovisão, mas também entram aqui outros elementos de índole cultural.

 

Por: FERNANDO TCHACUPOMBA

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