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OPAÍS

Prédios inacabados transformados em WC e depósito de lixo na cidade de Luanda

Stela Cambambapor Stela Cambamba
2 de Fevereiro, 2023
Em Manchete

Os edifícios localizados na zona urbana da cidade de Luanda, tidos como abandonados há bastante tempo, têm sido transformados em locais para as necessidades fisiológicas e depósito de lixo. Uns, apesar de servirem como urinóis, só apresentam alguma limpeza porque os moradores de rua procuram manter a higiene do local

Localizado bem no centro do Distrito Urbano da Maianga, o prédio com mais de dez andares chama a atenção de muitos transeuntes que frequentam a Rua Amílcar Cabral, não pela sua beleza mas pelos rústicos tijolos que compõem o edifício e as chapas de zinco que dão a cobertura do espaço há bastante tempo.

Este “prédio de tijolo” está abandonado há bastante tempo, sem qualquer projecto de reabilitação, e apesar de passar despercebido para muita gente, o cheiro nauseabundo proveniente do local não dá para disfarçar a necessidade urgente de intervenção. Para completar o estado de abandono, o prédio está localiza- do próximo de uma unidade hospital de referência, Hospital Maria Pia, numa cidade onde a população tem como hábito passar a noite próximo dos hospitais quando têm um familiar internado.

Na Maianga não há WC público, pelo que aqueles que pernoitam na região têm a área do edifício para as suas necessidades fisiológicas. A ferrugem das chapas de zinco que rondam o local do prédio não esconde a quantidade de urina que recebeu ao longo dos anos, das vá- rias noites que presenciou os familiares dos doentes a verem naquele espaço o lugar ideal para satisfazer suas necessidades. Há mais de 10 anos que Alberto Adão Francisco vive com os seus amigos, cerca de duas dezenas, neste edifício abandonado, na Maianga. Tem passado as noites na parte de baixo do prédio, sendo que os outros companheiros ocupam a parte de cima.

Apesar do esforço por eles exercido para garantirem a limpeza do espaço, nenhum produto de limpeza minimiza o cheiro de xixi e fezes que exala do local, sem terem que fazer absolutamente nada para impedir os outros cidadãos de usarem o espaço para este fim. Assim, por conta da vida precária que levam, os jovens não têm outro sítio onde passar as noites senão naquele espaço, que não sabem a quem pertence, e que também usam como WC. Quem passa pela avenida pode observar as pessoas que ficam à volta do edifício, entre vendedores e familiares de pacientes internados no Maria Pia, que aguardam por informações dos seus parentes. Os jovens  moradores do edifício partilham o espaço com estes ilustres desconhecidos, todos os dias.

Jovens moradores cobram pelas necessidades

Nos dias em que a chuva caí, Alberto disse que tem prestado a sua solidariedade aos familiares dos pacientes, no sentido de os abrigar. “Nós ajudamos as mães, as deixamos entrar no prédio para que não apanhem chuva e, durante a noite, fazemos ronda para protegê- las dos assaltos, já que à noite ficam expostas ao perigo”, garante. Mesmo sendo um espaço que não lhes pertence, os moradores daquele prédio, tal como nos confirmou o entrevistado, quando o cidadão quer fazer as necessidades fisiológicas no interior do edifício é-lhe cobrado 50 (para urinar) ou 100 (defecar) kwanzas.

Fredy Adão Sacaia, um dos familiares dos pacientes internados no hospital Maria Pia aproveitou a ocasião para manifestar ao jornal OPAÍS o seu descontentamento, nos poucos dias que está no lo- cal a aguardar pela recuperação do seu irmão. Com a situação dos familiares não têm outra alternativa, senão pernoitar no edifício abandona- do, que também é usado como WC público e depósito de lixo. Lamenta o risco que correm e tudo espera para que o seu irmão receba logo a alta médica.

O edifício que ficou conhecido por conta de um assalto

Até antes do dia 21 de Abril de 2022, quando um grupo de as- saltantes espalhou terror na Avenida Comandante Gika, durante um assalto frustrado pela Polícia de Intervenção Rápida, o edifício que fica junto ao Hotel Alvalade passava despercebido aos olhos da população. No dia do assalto houve troca de tiros, um taxista foi atingido na cabeça, o grupo de marginais não tinha onde se esconder se- não no edifício abandonado.

Ficaram ali por várias horas, escondidos na cave, até que a polícia montou um forte contingente policial que os obrigou a se render. No bairro Alvalade, um dos seguranças de uma das residências, na rua em que se encontra o prédio abandonado disse à nossa equipa de reportagem que o espaço foi vedado com a colaboração de algumas instituições na zona, como a Clínica Girassol, de mo- do a evitar os assaltos e agressões que algumas vezes ocorriam. Quem passa pelo edifício observa que a imagem melhorou, is- to porque a entrada do espaço esta vedada com gradeamento, de modo a facilitar a visibilidade de quem estiver do lado de fora e, ao mesmo tempo, impossibilitar a entrada de meliantes.

Segundo o segurança, que preferiu não se identificar, na rua não se regista mais agressões como anteriormente, uma vez que o espaço era tido como zona de fuga dos meliantes. Hoje, o espaço é utilizado apenas por alguns jovens, meninos de rua, para dor- mirem, no período da noite, também porque os mesmos fizeram uma abertura na grade que usam como porta. Outro edifício que também está a se transformar em local para as necessidades fisiológicas é o antigo prédio da Cuca, no Largo do Kinaxixi, onde foram retiradas 170 famílias sob alegações de risco de desmoronamento, por se encontrar em estado avançado de degradação.

O jornal OPAÍS tentou contactar o Governo Provincial de Luanda para obter algum esclarecimento sobre este assunto, mas não teve sucesso. Foi-nos indicado o Ministério das Obras Públicas, mas os esforços desenvolvidos para o enriquecimento desta matéria foram infrutíferos. Importa realçar ainda que no distrito urbano da Maianga contactamos o director do gabinete do administrador do distrito, que, depois de ter contactado o seu superior hierárquico, informou-nos que na “sua jurisdição não tem edifícios abandonados, que todos, supostamente desprotegidos, têm donos, e que para mais informação sobre o arranque ou não das obras, apenas os proprietários saberiam dizer”, reforçou.

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