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OPAÍS

Caso 500 milhões de dólares: “O processo estava à partida viciado’’

Dani Costapor Dani Costa
2 de Agosto, 2024
Em Entrevista
Caso 500 milhões de dólares: “O processo estava à partida viciado’’

Actual governador da província do Namibe, o economista Archer Mangueira lançou, em Junho, o livro ‘Angola: A geração da transição’, uma obra com 345 páginas, onde narra a sua infância, a entrada na política aos 13 anos e o facto de se ter tornado o deputado mais novo da Nação, na então Assembleia Popular Provincial de Luanda. Sem destemor, o político fala do 27 de Maio de 1977, conta a sua passagem enquanto efectivo da Segurança do Estado e como ficou chocado com as finanças públicas quando foi nomeado ministro das Finanças. Mas, nesta conversa com o OPAÍS e a Rádio Mais, não deixou de lado o ainda badalado caso 500 milhões de dólares, que o governante garante ter nascido viciado à partida

Já conhecia a Media- nova de certeza absoluta?

As instalações não, mas conheço o historial, até porque o vosso primeiro director foi um grande irmão para mim e um conselheiro também. Portanto, tenho boas referências do vosso grupo.

É por aqui que podemos começar a falar do livro. Trata-o (João Vieira Dias Van-Dúnem) como um ‘príncipe’ no livro. Sente muitas saudades dele?

Todos os dias. Não havia dia nenhum que não falamos ou não trocávamos ideias. Não havia fim-de-semana nenhum que não tertuliávamos o país, as nossas vidas, as nossas famílias, que se cruzam. E depois, digamos, o lado de conselheiro que via no João, portanto, além de o considerar um irmão mais velho. Conhecemo-nos um pouco já mais tarde, adultos, quando ele chega de Londres, na altura estava na BBC.

Conhecemo-nos num meio familiar, mas já tínhamos contactos indirectos, depois tornamo-nos verdadeiros amigos, além dos cruzamentos familiares que facilitou de alguma forma. Quando assumiu o Grupo Medianova, aí tivemos contactos mais frequentes. Além da relação de amizade, contactos do ponto de vista profissional, fui convidado também por ele para ser colaborador da revista Exame.

Na altura, também estava o Carlos Rosado na revista e eu escrevia artigos de especialidade. Quando vou para Presidente do Conselho de Administração da Comissão de Mercados de Capitais, necessitei também de alguma assistência e assessoria do marketing que era necessário fazer, a divulgação sobre mercados e valores imobiliários, ele foi uma pessoa determinante.

Escolheu como título do livro ‘A Geração da Transição’. Mas quem olha para o conteúdo dá para perceber que há uma geração da esperança. Por que não Geração da Esperança e não Geração da Transição?

Já houve quem chamou o livro ‘As Gerações’ e não ‘A Geração da Transição’. Eu dou destaque à minha geração política. A geração que se envolveu no processo de construção de Angola nos períodos anteriores à independência, logo depois do golpe de Estado em Portugal, em 25 de Abril de 1974, que quis participar na luta pela liberdade e pela independência, que participou no processo imediatamente após a independência para a construção do país novo até meados dos anos 80. Portanto, é a minha geração política e foi a que eu pretendi descrever como registo, por ter sido também protagonista e ter feito parte. E por se tratar de um livro autobiográfico, não é um livro de história. Se fosse um livro de história, portanto, poderia retratar de outras gerações. Eu trato da minha geração. E como diz e bem, Dani Costa, o objectivo também foi deixar uma mensagem de esperança para as futuras gerações.

Não pensa que se envolveu na política muito cedo, uma vez que só tinha, na altura, 13 anos?

O meu envolvimento começa exactamente com o período em que se dá o golpe de Estado em Portugal, logo depois do 25 de Abril. Começaram as movimentações nos bairros para concluirmos, se assim se pode dizer, o processo de descolonização de Angola. E também nos liceus, nas escolas preparatórias do ensino secundário, na universidade, a única que existia no país. Fui mobilizado para esta luta que se fazia na cidade de Luanda, particularmente no meu bairro, o Marçal, onde comecei, e também no liceu, onde já se fazia sentir a luta contra a colonização portuguesa.

Eram muitos os alunos ‘grevistas’?

Organizamo-nos na pro-associação do ensino secundário e também havia uma pro-associação dos estudantes do ensino superior. Portanto, na altura, só tínhamos uma universidade e mobilizamos todos os estudantes da terra para a organização de uma greve, que exigia abolição da discriminação nas escolas e a suspensão dos exames. Na verdade, foi uma forma já de luta contra o processo de descolonização, uma vez que era também nas escolas que se passava a mensagem de descolonização e, na altura, vivíamos uma revolta reprimida. Porque não nos podíamos manifestar e foi um movimento que se generalizou e teve adesão de quase todos os estudantes.

Menciona figuras políticas de proa, alguns deles hoje na oposição, que tiveram um papel preponderante na altura. Qual foi a importância que eles tiveram para que aderisse ao movimento reivindicativo estudantil?

Eles foram verdadeiros líderes e foram para mim uma grande referência para a minha iniciação à política.

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