Conhecidos pela actividade de compra, colecção e comercialização de livros, os alfarrabistas alertam para a perda gradual de impacto do sector. Estes profissionais, que assumem a missão de promover o acesso ao conhecimento junto das comunidades através do chamado “Mestre Mudo”, manifestam preocupação com o actual cenário da actividade
Lá se vai o tempo em que os alfarrabistas ocupavam um lugar de destaque em Luanda, solucionando alguns problemas na aquisição livro. Eles preenchiam, muitas vezes, lacunas no difícil acesso às obras nas livrarias e bibliotecas. Esta actividade contribuiu, de forma tímida, para o exercício mental das pessoas, por meio da leitura, todavia, os alfarrabistas hoje sentem-se discriminados e ignorados.
No decorrer de uma reportagem feita no final do mês de Outubro, pelo Jornal OPáis, constatou-se que, apesar das imensas dificuldades enfrentadas por estes livreiros, não cruzam os braços e mantêm-se focados nos desafios diários.
Ao comercializarem as diferentes obras, pelo que se evidenciou, muitos deles suportam altas ondas de calor, chuva e até mesmo ausência de clientes. O contacto com estes “Guardiões da memória” iniciou-se na zona dos Coqueiros, estendendo-se em outras circunscrições, por exemplo, no Rangel, e finalizou no bairro Palanca, no município do Kilamba-Kiaxi.
Falta de hábito de leitura e procura por livros na internet contribuem para o fraco rendimento dos alfarrabistas
Nlando Pedro tem 73 anos, reside na Terra Nova, Rangel, exerce a actividade alfarrabista há 30 anos. Encontramo-lo sentado à beira da estrada, a interagir com jovens sapateiros, debaixo de um sol ardente.
Quando começou a comercia lizar livros, segundo o livreiro, vendia por semana 73% dos seus produtos, mas, actualmente, com o desenvolvimento da tecnologia digital, declinou para menos de 10 %. Com mais de 30 anos a exercer a actividade, Nlando reconhece que a situação não está para me nos, assim sendo, apela às instituições e a quem de direito a apoiarem-nos, no sentido de inverter o referido quadro.
Visivelmente agastado, o mais velho declarou que a actividade de alfarrabista está a perder espaço, com a desvalorização do livro por parte dos cidadãos.
A actividade de alfarrabista, admitiu Nlando Pedro, não é a mesma como nos tempos passados, por vários factores, como a falta de espaço e actualização do acervo bibliográfico. “O fraco nível dos hábitos de lei tura, o imediatismo dos jovens no recurso à internet para baixar suportes e áudios de livros para se livrarem da cultura de ler, contribui para os baixos níveis de rendimento na venda dos seus volumes”, desabafou.
Diante desta realidade, o alfarrabista afirmou que alguns colegas decidiram inverter este quadro crítico, recorrendo-se a venda de outros negócios, entre eles, esferográficas, cadernos, mate riais desportivos e t-shirts, para assegurar uma refeição diária.
Nlando Pedro confessa, ainda, que a venda dos livros pouco ou quase nada rende, motivo pelo qual muitas vezes são confundi dos como meras figuras decorativas de livros nas ruas, nos mercados ou numa esquina improvisada como montra, sublinhando que as dificuldades multiplicam se cada vez mais.








