Dani Costa
Coordenador
As eleições no Brasil e as recentes realizadas nos Estados Unidos acabaram por mobilizar uma certa franja de angolanos sobre o que se passa nestes dois países. Num ápice, o debate em torno do que é a esquerda e a direita tornou-se também um assunto que aumentou os debates e transformou as redes sociais e outras plataformas num verdadeiro campo de batalha. É indiscutível que a política esteja entranhada no seio de qualquer cidadão.
Incluindo os angolanos. Mas, por mais esforço que faça, quase nunca divisei entre nós um verdadeiro debate sobre as ideologias das organizações políticas nacionais, ou seja, se se posicionam mais à esquerda, à direita ou ao centro. Em Angola, infelizmente, houve uma fase em que o voto era visto sobretudo numa componente étnica para muitos, dispensando-se as ideologias e até mesmo os programas que os próprios partidos políticos apresentavam.
E as eleições de 1992, embora assentes ainda sob o espectro de uma guerra, na época, mal resolvida, como se acabou por confirmar com o recrudescimento meses depois da publicação dos resultados, há praticamente consensos de que nem tão pouco os programas foram tidos em conta. Não seria nenhum sacrilégio se se afirmasse que muitos dos militantes dos próprios partidos políticos, incluindo os principais, não saibam sequer a linha ideológica das organizações que há anos integram.
Aliás, o debate que se assiste hoje trouxe à liça conclusões de que quem prefira, por exemplo, Lula da Silva em detrimento de Flávio Bolsonaro seja um esquerdista e, concomitantemente, simpatizante ou amigo do MPLA, e o contrário, um homem de direita, ou seja, bolsonarista e trumpista. Embora tenha nascido com uma vertente de esquerda marxista-leninista, por exemplo, o MPLA está hoje longe de pregar a mesma cartilha. Está hoje, depois de largos anos, mais virado para a social-democracia.
De igual modo, a própria UNITA, antes apologista de uma matriz anti-marxista, anti comunista, está hoje mais a nível de centro-direita, razão pela qual integra até uma organização internacional desta família política. A lista de incongruências é vasta. Os demais partidos, não obstante o que pregam os seus estatutos, estão muito distantes do que praticamente oferecem ou daquilo que os cidadãos julgam ser de facto.
É só olharmos para a hoje moribunda FNLA, PRS e o próprio PRA-JA. Não se pode, por exemplo, ser liberal e, ao mesmo tempo, não concordar que se estenda a privatização para determinados sectores da vida económica, como observamos.
Nem tão pouco ao seguir uma política social-democrata em determinados momentos observam-se acções que acabam por ir contra estes ideais, que contrastam com a “ideologia de centro esquerda que busca conciliar economia de mercado capitalista com forte proteção social, usando impostos, regulação e serviços públicos para reduzir desigualdades”.
A forma como muitos de nós se interessam pela política internacional, principalmente daqueles países em que alguns estão umbilicalmente ligados, deveria servir de mote para que também se abraçassem, a nível interno, aspectos que nos iriam proporcionar conhecimentos sobre o que estes podem fazer ou fariam se alcançassem o poder de facto.
Por mais ideologias que possam existir, não há dúvidas de que o mais importante ainda continua a ser resolver os problemas do povo. Mas, ainda assim, os anos de democracia que vamos vivendo já deveriam permitir que se olhasse para os partidos como se não tivessem um catecismo orientador, apesar da existência de uma ‘extrema-direita’ de fundamentalistas democráticos, sobretudo nas redes sociais, que mais não fazem senão procurar denegrir qualquer esforço que se faz num país que não tem os mesmos anos de multipartidarismo que muitos daqueles que defendem como se fossem os seus originários.








