Os docentes analisaram os desafios que permeiam a profissão e destacaram ainda o papel fundamental da docência no desenvolvimento de uma sociedade que pretende evoluir em todos os aspectos. Entre os vários aspectos observados, os intervenientes defendem que, no contexto angolano, a classe precisa de mais dignidade e valorização
Celebrou-se ontem (5) o Dia Internacional dos Professores, efeméride instituída pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), como uma data para celebrar e reconhecer a forma como os professores estão a transformar a educação, mas também para reflectir sobre o apoio de que precisam para desenvolver plenamente seu talento e vocação, e para repensar o caminho a seguir para a profissão em todo o mundo.
Com intuito de entender o actual estado da docência no País, o jornal OPAÍS manteve entrevistas com vários professores que, no decurso das conversas, defenderam uma profissão digna e valorizada, analisaram os desafios que permeiam a profissão dos “homens do giz” e destacaram ainda o papel fundamental dos professores no desenvolvimento de uma sociedade que pretende evoluir em todos os aspectos.
“O professor é o elemento mais fundamental a nível mundial para poder transformar as mentes”.
É a afirmação que faz o docente Matondo Simão, que ministra a cadeira de história há mais de uma década e meia.
Segundo o interlocutor, o professor procura trazer o homem mais moderno de forma que possa desenvolver aquilo que é o desafio do século em que vivemos.
Para si, a data serve como um momento de reflexão a nível nacional e internacional sobre aquilo que tem sido o papel do professor para a integração dos indivíduos na sociedade.
Para o docente que ministra a cadeira de História no ISCED do Bengo, actualmetnte ser professor é um desafio, e este dia serve como motivo para refletir como os professores têm sido capazes de implementar a filosofia adequada para que os alunos possam dar “frutos” para a sociedade.
No seu entendimento, a educação é um processo que exige a intervenção de todos, não apenas do professor, sublinhando que começa em casa, na família, e na escola o indivíduo é direcionado para o campo científico e académico.
“Precisamos da integração cada vez mais dos encarregados da educação, para que possa ter uma melhor ligação entre a informação que temos dos nossos filhos, dos nossos estudantes que vêm de casa.
Pois o aluno de hoje tem muita informação e esta informação muitas vezes precisa ser penerada”, afirmou professor Matondo, como prefere ser tratado.
O profissional do giz alertou igualmente sobre o perigo das ferramentas digitais que os estudantes têm nos tempos actuais, já que a informação chega até os mesmos de forma fácil e sem muitos empecilhos.
Falta de apoio à classe docente causa “fracasso”
Durante o decurso do Dia Internacional do Professor, o docente universitário Celestino Macaia, docente há mais de 20 anos, realçou a importância da efeméride que recorda o impacto dos “homens do giz” em todas as esferas da sociedade, já que não existe alguém que seja quadro ou um profissional de destaque sem que tenha passado por um professor.
“Todos nós devemos algo aos professores. Então, essa data tem essa grande importância. Quem não aposta na educação, logo a seguir tem um fracasso. Isso é demonstrativo nos países desenvolvidos, porque o melhor recurso que o mundo tem é mesmo o homem (professor), o funcionário, esse que transforma tudo”, considerou o profissional, apelando para que a imagem ou o papel do professor deve ser repensada.
Para o também comunicólogo, a figura do docente é citada em vários discursos, mas. quando se senta na hora de concretização de muitos desses projectos, não reflectem a realidade.
A sociedade, continuou o professor, precisa olhar mais para a imagem do profissional como formador e dar-lhe atenção que merece, sobretudo no quesito salarial.
Na mesma linha de defesa, está a ex-professora Elizabeth Tecassala que defende que o Ministério da Educação poderia velar pela classe com muito mais “honra” e “valor”, neste contexto actual de muitas dificuldades.
Sem receio, a ex-professora do ensino primário afirma, com tristeza, que foi obrigada a largar o giz optar por uma outra área profissional porque a docência não lhe conferia um salário digno para sustentar a família.
“Não têm valorizado muito essa proporção dos professores, sendo que um professor aqui no nosso país seria até uma das profissões bem pagas, mas infelizmente ganham mesmo muito mal.
Principalmente os professores das escolas privadas”, rematou.
A ex-pedagoga entende que o Governo não deve velar simplesmente pelas escolas públicas, mas também nos profissionais que estão no sector educativo privado.
Segundo a mesma, não é a única que foi afectada pelo mau rendimento salarial, mas muitos outros professores, embora manifestem de outros modos, já não são pacientes com os alunos durante a actividade educativa devido àquilo que ganham como salário.
“Então, como eu disse, é mesmo o dinheiro que motiva ou às vezes desmotiva”, atirou a ex-educadora que já auferiu um salário de 15 mil kwanzas.
Falta de valorização da classe dos docentes
Já o docente e jornalista Augusto Cuteta afirmou que, apesar de estarem a celebrar o Dia Internacional dos Professores (ontem), a classe tem tido a infelicidade de verificar poucas actividades em torno dessa data.
Para o mesmo, é fundamental que se mude esse paradigma.
“Tal como se valorizam as várias datas em homenagem às mulheres, é fundamental que o professor, como um agente de educação, quer em sociedades como a nossa, quer em sociedades de outros níveis ou de outras latitudes, seja valorizado, mais ainda nessa data”, afirmou o docente que lecciona há mais de duas décadas.
Para Augusto Cuteta, há um certo desnivelamento entre aquilo que é a função do professor e a valorização que o Estado Angolano dá ao papel do próprio professor.
E acrescentou que, se as questões que levam o professor a servir bem não forem acauteladas, os professores vão continuar desanimados, sem, na verdade, darem o melhor de si para que a sociedade possa ser influenciada positivamente com aquilo que são.





