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A solarização metafórica em Capui Lara: ‘‘O Sol Mulembeiral e Latidos do Sol” à luz do poder simbólico de Pierre Bordiau

Jornal OPaís por Jornal OPaís
4 de Maio, 2026
Em Opinião

A poesia é, talvez, a única for ma que o indivíduo tem de se afastar da realidade circundante e, por vontade própria, superar as nuvens numa incursão nefelibata. Os poetas, tidos mui tas vezes como “loucos-lúcidos”, expressam o indizível, ao revela rem aquilo que a razão cartesiana não consegue desvendar. Nesse horizonte, se inscreve Capui Lara, pseudónimo literário de João Lara Makuva Hotalala, escritor angolano, nascido em Caluquembe, província da Huíla, membro da União de Escritores Angolanos e da Brigada Jovem de Literatura (BJLA).

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É conhecido como “o poeta do Sol”, pois sua expressão literária conduz os leitores a uma viagem de dentro para fora das suas próprias vi das, despojando-os de suas carcaças existenciais, ao mesmo tempo os convida a uma vibração estética, onde o sol surge como metáfora central. Para uma Angola contemporânea, em que a paz social se apresenta como desejo ainda inalcançado, a poesia de Capui Lara levanta reflexões revolucionárias e sociais.

A metáfora do sol em sua obra articula o sofrimento individual e colectivo, revelando uma insatisfação latente em relação à classe governativa de Angola e de África. Assim sendo, este ensaio pretende analisar o sol como metáfora na poesia de Capui Lara, particularmente nas obras O Sol Mulembeiral e Latidos do Sol, à luz de O poder simbólico de Pierre Bourdieu, com isso, nos predispusemos em confirmar que o sol será sempre uma metáfora na poesia de Capui Lara, apresentando-se como um instrumento de crítica social, política e existencial.

Por um lado, procurou-se avaliar o uso da metáfora solar como recurso de resistência poética, relacionando a codificação simbólica da poesia de Lara ao conceito de poder simbólico de Bourdieu.

Por fim, não deixamos de investigar as representações da juventude, da emigração e da luta social em sua poesia e, por meio disso, refletir sobre a dimensão revolucionária implícita nos textos de Capui Lara. Pierre Bourdieu (1989) desenvolveu o conceito de poder simbólico, entendendo-o como uma for ma de dominação exercida por meio da linguagem, da cultura e da produção de sentidos.

Na vi são do autor, este poder é invisível e só se sustenta porque é reconhecido pelos dominados, ainda que de forma inconsciente. Entretanto, no campo da literatura, o poder simbólico manifesta-se tanto na legitimação de discursos quanto na possibilidade de resistência. Aqui, a poesia de Capui Lara, ao articular metáforas solares, confronta o poder instituído e denuncia as desigualdades sociais, funcionando como espaço de resistência simbólica.

Além disso, a sua escrita dialoga com a tradição da literatura engajada africana, que vê a arte não apenas como contemplação estética, mas como intervenção política e social; as imagens do sol, da emigração e do sofrimento colectivo podem ser lidas como formas de dar visibilidade às contradições sociais, políticas e culturais do continente africano.

Em África ao Sol, Lara apresenta imagens que denunciam a condição de sofrimento e deslocamento dos africanos: Olhos dormentes na vasta flores ta da vida Pés bordados de sede e amargura Vender esperança às flores adultas Viver marchando vazias lutas Salgados pássaros emigrantes Nossas gentes vagueantes África brotam nas Europas, Oceânia, Américas, Ásia ao Sol.

O poema inicia com uma expressão metafórica, uma espécie de prenúncio de cansaço e sonolência, o que se mostra como uma caricatura do jovem angolano actual, marcado por uma crise, uma carência existencial, alienado diante de uma realidade que ele mesmo desconhece, vive cegamente, pois está dominado pelas estruturas de poder, que não lhe permitem pensar por si mesmo.

Com isso, “olhos dormentes na vasta floresta da vi da”, faz-nos pensar, ainda mais, na complexidade de tudo o que existe, nos vários contornos que vida social angolana proporciona aos jovens, nas incertezas e nos caminhos espinhosos em que estão sujeitos. Portanto, esta floresta da vida, tão complexa e cheia de possibilidades, faz uma crítica aos jovens sem lucidez, sem a força impoluta que se manifesta no despertar interior, sem a verdadeira percepção do seu destino.

“Os pés bordados de sede amargura” estabelecem uma ligação directa com a visão de Bordiau, na medida em que simbolizam justamente essa inscrição poética que Capui Lara faz da imagem categoriza do perfil social angolano, onde apesar de se buscar por algum sentido da vi da, há pedras no caminho que causam frustração.

As imagens “olhos dormentes” e “pés bordados de sede amargura” revelam um sujeito profundamen te imerso nas estruturas de dominação simbólica. Como afirma (Bordiau,1989, p.7) “O poder simbólico é um poder invisível exercido com a cumplicidade dos próprios sujeitos”, isso explica a apatia e a ausência de consciência crítica sugeridas pelos “olhos dormentes”.

Por outro lado, ao reconhecer que “as estruturas sociais se inscrevem nos corpos”, compreende-se que os “pés bordados” representam a materialização da desigualdade, onde a dor e a carência se tornam marcas constitutivas da experiência social. Assim, a “floresta da vi da” configura-se como um espaço aparentemente natural, mas profundamente estruturado por relações de poder invisíveis.

Entretanto, há, também, uma revelação do sentimento de exílio e de luta vazia, onde os africanos, diga-se angolanos, transformados em “sal gados pássaros emigrantes”, buscam melhores condições de vida fora de seu continente.

A metáfora solar, aqui, simboliza tanto o fardo da realidade africana quanto a possibilidade de iluminação e resistência. Capui Lara opta por versos livres, sem métrica ou rima clássica, privilegiando o conteúdo social. Sua poesia reflete uma juventude angolana dividida entre a desesperança e a necessidade de emigrar.

A metáfora do sol actua como símbolo de resistência e revolução silenciosa, irradiando nos leitores uma consciência crítica diante das desigualdades sociais. Nessa perspectiva, a poesia cumpre uma função próxima à do poder simbólico bourdieusiano: desvelar estruturas de dominação e instigar formas de resistência cultural e política.

Por: LEOVIGILDO ANTÓNIO

*Mestre em Ciências da Educação na Especialidade de Ensino da Língua Portuguesa pelo ISCED-Sumbe

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