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O que significa realmente a economia crescer 3% em Angola?

Jornal OPaísPor Jornal OPaís
10 de Abril, 2026
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 3 mins de leitura
O que significa realmente a economia crescer 3% em Angola?

Quando os noticiários anunciam que a economia angolana “cresceu 3%”, a reação nas ruas, nos táxis e nas filas dos supermercados é, por vezes, um silêncio desconcertante.

Como é que um número que soa a vitória continua a conviver com o prato mais leve, o transporte que aperta e a conta da luz que não perdoa? A verdade é que o Produto In terno Bruto (PIB) não mente, mas também não conta a história inteira.

E é essa história, a que acontece longe dos holofotes macroeconómicos, que precisamos de começar a ler juntos. Tecnicamente, 3% de crescimento significa que o valor total dos bens e serviços produzidos no país aumentou.

É um sinal de que a máquina económica está a ganhar tracção após anos de ajustamentos. Mas há um detalhe que os manuais raramente destacam nas manchetes: a população angolana cresce a quase 2,8% ao ano, segundo o INE.

Ou seja, esse 3% quase se dissipa na demografia. Quando dividimos o bolo pelo número de bocas, o crescimento real por habitante fica à beirado zero.

Não é crise, mas também não é alívio. É um equilíbrio frágil que exige mais do que comemorações estatísticas. Na prática, isto traduz-se nu ma economia de dois tempos. Nas planilhas oficiais, o petróleo exporta-se, os indicadores de reservas estabilizam, o investimento estrangeiro faz fila.

Na economia real, a vendedora do mercado, o condutor de candongueiro, o jovem técnico de informática e o pequeno agricultor sentem a mesma pressão: os preços sobem mais rápido que os rendimentos.

A inflação, ainda a dois dígitos, corrói silenciosamente o poder de compra. Um crescimento que não se traduz em emprego digno, em crédito acessível ou em preços previsíveis. É como um motor que ruge, mas não anda.

Como consultor financeiro, há mais de uma década a acompanhar a estrutura de custos das empresas e a gestão financeira das famílias angolanas, a lição que repito é simples e dura: o cresci mento só é real quando desce a escada.

Quando toca no salário do enfermeiro, na factura do artesão, na esperança do recém-formado que procura a primeira oportunidade. Angola não precisa apenas de crescer. Precisa de crescer com qualidade. Isso significa apostar a sério em sectores que geram emprego massivo e valor agregado: agricultura de escala, turismo sus tentável, indústria ligeira e economia digital.

Significa reduzir o tempo e o custo para abrir e manter uma Pequena e Média Empresa (PME), conforme já sinalizam o Ministério das Finanças (MINFIN) e o Banco Nacional de Angola (BNA), e garantir que a política monetária caminha de mãos dadas com a política social. Sem esta ponte, o macro fica órfão do micro.

O próximo comunicado do Banco Nacional de Angola ou do Ban co Mundial não vai mudar a rotina de quem acorda às 5h para garantir o sustento da família. Mas as nossas escolhas colectivas podem.

Um país que celebra indicadores deve, ao mesmo tempo, medir o seu sucesso pela dignidade do cidadão comum. A pergunta não é se Angola vai crescer 3%, 4% ou 5%. A pergunta é: quem vai sentir esse crescimento na pele, no bolso e no futuro dos filhos?

Por: ABRAÃO HUNGULO

*Economista e consultor

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