Nossa Seguros BFA SB Expo_Huambo FIB BANCO BAI STANDARD-BANK
Sáb, 3 Out 2026
OPAÍS
Em directoOuvir a Rádio Mais em directo
  • Política
  • Economia
  • Sociedade
  • Cultura
  • Mundo
  • Desporto
  • Mais
    • Publicações
    • Opinião
    • Entrevista
    • Editorial
    • Vídeos
    • Saúde
    • África
    • Ciência e Tecnologia
    • Cronica de Dani Costa
    • Justiça
    • Reportagem
Sem Resultados
Ver Todos Resultados
OPAÍS
  • Política
  • Economia
  • Sociedade
  • Cultura
  • Mundo
  • Desporto
  • Mais
    • Publicações
    • Opinião
    • Entrevista
    • Editorial
    • Vídeos
    • Saúde
    • África
    • Ciência e Tecnologia
    • Cronica de Dani Costa
    • Justiça
    • Reportagem
Sem Resultados
Ver Todos Resultados
OPAÍS

O ministro que levou a mala: o escândalo dos 100 mil contos no Governo de Transição

Paulo Sérgiopor Paulo Sérgio
31 de Outubro, 2025
Em Opinião

“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente.” A frase do poeta brasileiro Mário Quintana poderia muito bem servir de epígrafe à história de Samuel Abrigada, médico angolano formado na Alemanha, pastor protestante, militante da FNLA e protagonista de um dos episódios mais controversos do período que antecedeu a independência de Angola. Educado na Europa e respeitado entre os seus pares, Abrigada carregou para sempre uma mancha que o tempo não conseguiu apagar.

O seu nome poderia figurar apenas entre tantos outros combatentes e dirigentes da FNLA que marcaram presença no diário de Onofre dos Santos, intitulado “Os (meus) dias da Independência: testemunhos”, como bravos contribuidores para a luta de libertação nacional.

Mas não foi o caso. A sua trajectória ficou ligada a um episódio que ecoou além-fronteiras e se tornou, com o tempo, símbolo de como as fronteiras entre o idealismo político e a ética pública podem facilmente se desvanecer. Tudo aconteceu durante a vigência do Governo de Transição, empossado a 31 de Janeiro de 1975, em Luanda, resultante do Acordo de Alvor, assinado por Agostinho Neto, Holden Roberto, Jonas Savimbi e representantes do Estado português.

O Governo, concebido como experiência de unidade nacional, integrava ministros indicados pelos três movimentos de libertação e visava preparar a proclamação da independência de Angola.

Samuel Abrigada assumiu papel relevante na execução das decisões saídas de Alvor, pois figurou entre os subscritores da Lei Fundamental de Angola, publicada a 30 de Junho de 1975, que reconhecia o direito do povo angolano à independência e à soberania plena. Era tido como um quadro de prestígio e competência técnica, em função das contribuições que prestou nas reuniões do Conselho de Ministros, em que participou activamente como representante dos Ministérios do Interior e o dos Transportes e Comunicações.

Mas a história tomou outro rumo. Poucos meses depois da tomada de posse, o seu nome começou a circular nos corredores do poder e nas conversas discretas dos diplomatas estrangeiros que acompanhavam o processo de transição. O rumor esteve baseado no levantamento de uma quantia equivalente a cem mil contos (quatro milhões de dólares à época) no cofre do Banco de Angola.

O dinheiro, retirado em espécie e transportado numa mala, desapareceu sem explicações convincentes. Ninguém soube ao certo se os fundos se destinavam a programas do Ministério da Saúde, pasta que então dirigia, ou se eram, na verdade, recursos encaminhados ao movimento de libertação a que pertencia.

A versão que ganhou força foi a de que o doutor Abrigada teria decidido, por conta própria, destinar o montante à FNLA. O episódio ficou conhecido como “o caso dos 100 mil contos”, e o ministro passou a ser chamado, com ironia e malícia, de “Cem Mil Obrigada”.

Onofre dos Santos, que conviveu de perto com vários protagonistas desse período, recorda no seu diário que o caso se tornou motivo de embaraço dentro e fora do Governo de Transição e, por conseguinte, manchou a imagem de um homem até então respeitado por sua formação europeia, sua fé e seu discurso nacionalista. O rumor atravessou fronteiras e chegou ao conhecimento do diplomata brasileiro Ovídio de Andrade Melo, Representante Especial do Brasil em Angola, que o relatou num telegrama datado de 30 de Abril de 1975.

No documento, anexado no livro do investigador brasileiro José Francisco dos Santos, intitulado “Angola: política externa brasileira para África no olhar de Ovídio de Andrade Melo”, o diplomata descreve que Samuel Abrigada teria levantado fundos suplementares e, em vez de aplicá-los em programas de saúde pública, “apoderou-se dos quatro milhões de dólares em moeda angolana e levou-os, em valises de mão, directamente ao partido em Kinshasa, para socorro aos refugiados”.

Ovídio acrescentava que a notícia lhe chegara por via de Eiras Rebello, antigo assessor do Ministério da Saúde, e fora confirmada por representantes do Escritório da Organização de Refugiados.

Além de que a Rádio Zaire, à época, noticiou o mesmo, declarando que o dinheiro fora recebido pela FNLA “para socorrer refugiados angolanos”. O retrato que Ovídio de Andrade Melo traçou do ministro da Saúde é o de um homem movido por fé e voluntarismo, mas prisioneiro de uma visão partidária da governação.

Pois, enxergava o problema da saúde pública em Angola quase exclusivamente sob a óptica dos refugiados no ex-Zaire, que deveriam regressar ao país a tempo de votar na FNLA nas eleições que deveriam ocorrer depois da proclamação da independência nacional.

Enquanto titular da pasta, se debatia com problemas financeiros visto que os fundos do Ministério estavam sob controlo de outros departamentos, designadamente, das Finanças e Planeamento, dirigidos por portugueses e por quadros do MPLA, que viam com desconfiança as suas iniciativas.

Para agudizar ainda mais a situação, a ajuda internacional, mediada pela ONU e pela Organização Mundial da Saúde, chegava lentamente e, na leitura do diplomata brasileiro, Abrigada mostrava-se impaciente e pouco disposto a submeter-se aos trâmites administrativos.

Sem acesso aos recursos e pressionado pelo desejo de mostrar resultados imediatos, terá decidido agir por conta própria. O gesto, que para uns simbolizava compromisso com os refugiados e com o sofrimento do seu povo, para outros revelou o perigoso cruzamento entre a devoção partidária e o desvio de fundos públicos.

Foi, nas palavras de Ovídio, uma “medida governativa pouco ortodoxa”, que o elevou “na estima do seu partido”, mas comprometeu a sua imagem perante o Governo de Transição e a opinião pública.

A partir desse momento, Samuel Abrigada passou a ser visto com desconfiança. Quando, meses depois, a FNLA e a UNITA decidiram formar um Governo conjunto que daria origem à efémera República Democrática de Angola, com capital no Huambo, Holden Roberto quis nomeá-lo novamente ministro da Saúde, mas Jonas Savimbi recusou terminantemente.

Onofre dos Santos, testemunha de uma reunião interna da FNLA que visou analisar a lista dos militantes que assumiriam cargos no novo governo, relata que Holden argumentou ter investido na formação do médico e não o imaginava noutra função.

No entanto, teve de recuar mais adiante, porque Savimbi manteve a sua posição, dando a entender que acreditava piamente que um homem com aquele histórico não poderia gerir bens públicos. Assim, o nome de Samuel Abrigada foi riscado da lista e ele, silenciosamente, desapareceu da cena política. Regressou à Europa e, apesar de distante de Angola, as sombras do episódio ficarão registrados na sua passagem pelo mundo.

A crónica desse “assalto” ao cofre do Banco de Angola, mais do que uma anedota política, é uma lição sobre a fragilidade da ética quando confrontada com o poder e a necessidade.

Samuel Abrigada pode ter acreditado estar a servir uma causa nobre, mas a história raramente distingue boas intenções de más decisões. Hoje, o seu nome permanece como lembrança amarga de como a fronteira entre o idealismo e a corrupção pode ser ténue. E, por outro lado, de como o passado, mesmo que se tente enterrá-lo, teima em regressar.

A outra lição que se pode tirar dessa história é que ceder à ganância ou ao impulso de confundir o bem público com a lealdade partidária é um erro que o tempo não apaga. A história encarrega-se sempre de o revelar, como uma cicatriz que resiste à passagem das gerações.

E se o protagonista já não estiver entre nós, caberá aos seus descendentes suportar o peso de um nome que, por um gesto impensado, se tornou sinónimo de desconfiança e vergonha.

Jornalista

Recomendado Para Si

É de hoje… A verdade sobre a Estrada 230

por Dani Costa
29 de Setembro, 2026

Foi na véspera da viagem ao Cuanza Sul que um dos nossos colegas me visitou no escritório para falar sobre...

Pontual: E se pensarmos em legalizar a ‘micha’?

por Jorge Fernandes
28 de Setembro, 2026

Aumenta a quantidade de jovens envolvidos na intermediação de serviços de compra e venda. Há diversos serviços, como de documentos,...

Editorial: Momento de afirmação

por Jornal OPaís
28 de Setembro, 2026

Angola saiu do jugo colonial no dia 11 de Novembro de 1975. Perante África e o mundo, o primeiro Presidente...

É de hoje… As novas ‘Cinderelas’ da política angolana

por Dani Costa
25 de Setembro, 2026

Eram formidáveis os encontros que haviam dos principais grupos da sociedade civil nas fases anteriores e posteriores ao conflito armado....

O mundo em anarquia: a voz de Angola no último baluarte do multilateralismo

por Jornal OPaís
24 de Setembro, 2026

O discurso do Presidente João Lourenço na 81ª Assembleia-Geral das Nações Unidas, profe rido a 22 de Setembro de 2026,...

Gestão sem planeamento: por quanto tempo uma empresa consegue sobreviver?

por Jornal OPaís
24 de Setembro, 2026

No artigo da semana passada, chamámos a atenção para uma ideia que consideramos funda mental: uma empresa não cresce apenas...

Carregar Mais

Edições Digitais

Mais Populares

    Siga OPAÍS no WhatsApp

    Recomendado Para Si

    Opinião

    É de hoje… A verdade sobre a Estrada 230

    por Dani Costa
    29 de Setembro, 2026

    Foi na véspera da viagem ao Cuanza Sul que um dos nossos colegas me visitou no escritório para falar sobre...

    Ler maisDetails
    Opinião

    Pontual: E se pensarmos em legalizar a ‘micha’?

    por Jorge Fernandes
    28 de Setembro, 2026

    Aumenta a quantidade de jovens envolvidos na intermediação de serviços de compra e venda. Há diversos serviços, como de documentos,...

    Ler maisDetails
    Editorial

    Editorial: Momento de afirmação

    por Jornal OPaís
    28 de Setembro, 2026

    Angola saiu do jugo colonial no dia 11 de Novembro de 1975. Perante África e o mundo, o primeiro Presidente...

    Ler maisDetails
    Opinião

    É de hoje… As novas ‘Cinderelas’ da política angolana

    por Dani Costa
    25 de Setembro, 2026

    Eram formidáveis os encontros que haviam dos principais grupos da sociedade civil nas fases anteriores e posteriores ao conflito armado....

    Ler maisDetails
    Opinião

    O mundo em anarquia: a voz de Angola no último baluarte do multilateralismo

    por Jornal OPaís
    24 de Setembro, 2026

    O discurso do Presidente João Lourenço na 81ª Assembleia-Geral das Nações Unidas, profe rido a 22 de Setembro de 2026,...

    Ler maisDetails
    Opinião

    Gestão sem planeamento: por quanto tempo uma empresa consegue sobreviver?

    por Jornal OPaís
    24 de Setembro, 2026

    No artigo da semana passada, chamámos a atenção para uma ideia que consideramos funda mental: uma empresa não cresce apenas...

    Ler maisDetails
    Carregar Mais
    Facebook Twitter Youtube Whatsapp Instagram

    Para Sí

    • Radio Maís
    • Media Nova
    • Negócios Em Exame
    • Chiola
    • Agência Media Nova
    • Contacto

    Categorias

    • Política
    • Economia
    • Sociedade
    • Cultura
    • Desporto
    • Mundo
    • Publicações
    • Vídeos

    Condições

    • Política de Privacidade
    • Política de Cookies
    • Termos & Condições

    @ Grupo Media Nova | Socijornal

    Sem Resultados
    Ver Todos Resultados
    • Política
    • Economia
    • Sociedade
    • Cultura
    • Mundo
    • Desporto
    • Mais
      • Publicações
      • Opinião
      • Entrevista
      • Editorial
      • Vídeos
      • Saúde
      • África
      • Ciência e Tecnologia
      • Cronica de Dani Costa
      • Justiça
      • Reportagem

    © 2024 O País - Tem tudo. Por Grupo Medianova.

    Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você está dando consentimento para a utilização de cookies. Visite nossa Política de Privacidade e Cookies.