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Adeus, Francisco — Papa da paz, do diálogo, da união e dos mais necessitados

Jornal Opaispor Jornal Opais
25 de Abril, 2025
Em Opinião
Adeus, Francisco — Papa da paz,  do diálogo, da união e dos mais  necessitados

A despedida do Papa Francisco comove o mundo. Uma figura profundamente humana, o pontífice que se tornou símbolo universal de fraternidade e compaixão, travou uma batalha silenciosa e dolorosa contra uma doença prolongada que o acometeu desde os seus 21 anos de idade.

Essa condição debilitante, que afetava principalmente seu sistema respiratório, acompanhou-o por toda a vida e tornouse mais intensa nos seus últimos anos.

Apesar do sofrimento físico, o Papa nunca deixou que a sua dor ofuscasse a missão que abraçou com coragem: ser um construtor de pontes em um mundo cada vez mais dividido.

A última vez em que apareceu publicamente foi na tarde de Páscoa, naquela Roma ensolarada que parecia também saber que se tratava de uma despedida.

A fragilidade no olhar, o sorriso sereno e o gesto de bênção dirigidos aos fiéis, tanto os presentes na Praça de São Pedro quanto os milhões espalhados pelo mundo, eram sinais de um adeus silencioso, mas profundamente eloquente. Foi, em termos práticos, a despedida de um pai espiritual ao seu rebanho.

Francisco foi, acima de tudo, um Papa da paz. A segurança global, a estabilidade das nações e a dignidade humana estiveram constantemente no centro de suas preocupações.

Sempre que um conflito armado se desenhava, ou mesmo quando gangues causavam terror nas comunidades mais pobres e esquecidas do planeta, ele se manifestava com firmeza, clamando pelo fim da violência. Não importava o local: fosse na Europa, na América Latina, na África ou no Oriente Médio, a voz de Francisco ecoava como um apelo urgente à razão e à fraternidade.

Sua preocupação com o diálogo era visceral. Acreditava que o entendimento entre os povos começava com a escuta mútua — um diálogo sereno, não violento, centrado na escuta verdadeira. Ensinava que o diálogo não era fraqueza, mas sim uma das expressões mais nobres da humanidade.

Um dos momentos mais simbólicos e comoventes de seu pontificado foi o encontro com os líderes do Sudão do Sul, país mergulhado em uma guerra civil sangrenta. Durante aquela reunião histórica, o Papa se ajoelhou e beijou os sapatos dos líderes, num gesto de súplica e humildade que chocou o mundo.

Na tradição religiosa cristã, esse gesto representa o mais profundo ato de serviço e clamor — um pedido do coração para que o outro abandone o caminho da violência e escolha a reconciliação.

Esse momento ficará para sempre na memória da diplomacia internacional como um testemunho do poder moral da fé.

Com a proximidade do conclave, previsto para maio, o mundo olha agora para o futuro da Igreja e das relações internacionais com um misto de esperança e responsabilidade.

Que tipo de Papa surgirá deste novo processo? Esperase, e deseja-se com ardor, que seja alguém que compreenda a profundidade do legado deixado por Francisco — um Papa aberto ao diálogo, fiel à construção da paz, diplomático por vocação, e acima de tudo, carinhoso com os mais necessitados.

O mundo contemporâneo, marcado por desafios sociais, climáticos, geopolíticos e tecnológicos, clama por líderes com empatia, coragem e pragmatismo. Francisco foi tudo isso.

E é essencial que os cardeais reunidos em conclave entendam que, mais do que escolher um sucessor, devem nomear um continuador de pontes alguém que siga erguendo passagens sobre os abismos de ódio, desigualdade e indiferença.

Mais do que um chefe religioso, Francisco foi uma consciência global. Seu legado, portanto, não deve ser apenas preservado: precisa ser aplicado.

Que os líderes mundiais escutem, com humildade, as diretrizes que ele nos deixou — orientações que ultrapassam o campo religioso e entram no âmago das Relações Internacionais.

A paz duradoura, a dignidade dos povos, o combate à pobreza e a valorização do diálogo são legados a cumprir, não apenas em nome da memória de Francisco, mas em nome de um futuro digno para toda a humanidade.

Como estudante de Relações Internacionais, não posso deixar de ver em Francisco não apenas o Sumo Pontífice, mas o diplomata da paz que o século XXI precisava — e que agora, nos deixa a tarefa de continuar sua obra.

Por: SEBASTIÃO MATEUS

* Especialista em Relações Internacionais Presidente dos Estudantes Angolanos em Moscovo

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