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Miguel Lutonda: “Se não fosse o basquetebol teria ido para a tropa”

Kiameso Pedropor Kiameso Pedro
19 de Abril, 2024
Em Desporto, Destaque

O ex-craque do 1º de Agosto e capitão da Selecção Nacional, Miguel Lutonda, 52 anos, que chegou ao mundo da bola ao cesto por influência de um amigo e colega de escola no Njinga Mbandi, Victor, confessou, em entrevista ao jornal O PAÍS, que o basquetebol angolano pode voltar a recuperar a sua hegemonia no continente africano, mas deixou claro que não vai ser assim tão cedo. Miguel Lutonda, também conhecido por General, devido a sua capacidade de lançamento na linha dos dois e dos três pontos, conquistou vários títulos nacionais e internacionais

Conte-nos: como foi a sua infância?

Na verdade, tive uma infância extrema- mente complicada, visto que, na altura, o nosso país se encontrava em guerra civil. Havia o recolher obrigatório. Não se podia estar nas ruas às altas horas da noite. Além disso, não tinha tênis para calçar. Digo sem rodeios, foi uma fase muito difícil da minha vida, se não fosse o basquetebol teria ido à tropa. Se calhar, não teria hoje um pé ou uma mão. Então, essa modalidade foi determinante para a minha vida e, graças a este desporto, hoje sou o homem que sou.

Quem o incentivou a praticar o basquetebol?

Foi um ex-colega de escola, o Victor. Na altura, frequentava o ensino primário na Escola Njinga Mbande, em Luanda. Pela altura que tinha, curiosamente, era um dos mais altos da turma. O meu amigo e colega Victor sempre me dizia que eu tinha inclinação para praticar essa modalidade. Ele dizia isso vezes sem conta, mas, verdadeiramente, confesso que não levava as palavras dele a sério. Eu entendia que não tinha talento para ser jogador de basquetebol, por- que ser atleta não estava na minha lista de prioridades. Naquela fase, tinha o sonho de ser médico, mas como diz o adágio popular “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, decidi abraçar o mundo do basquetebol e hoje agradeçlhe por ter insistido.

Onde é que começou a jogar e quais são as recordações?

Comecei no Grupo Desportivo da Banca em 1985. Quando cheguei a esse clube, a ideia era trabalhar com a classe masculina, mas não foi isso que aconteceu .Depois de algum tempo, convidei um amigo de infância para treinar comigo na Banca, porque entendia que ele tinha habilidades para singrar na modalidade. Na altura não sabíamos driblar, passar e lançar, então o treinador disse-nos que se quiséssemos jogar basquetebol tínhamos que nos juntar aos femininos. O meu colega não gostou da proposta e acabou por desistir, mas eu dei continuidade. Treinei com a equipa feminina durante seis meses e a dada altura o treina- dor quis fazer um jogo-treino, cinco contra cinco, em cadetes masculinos, no entanto faltava um jogador para completar o grupo, eram apenas nove jogadores, o treinador olhou para onde eu estava a treinar, disse- me para se juntar aos masculinos. Nesse jogo, dei o meu máximo, porém o treinador decidiu que eu tinha, a partir daquele momento, que continuar na equipa masculina.

Quais foram as dificuldades?

A minha principal dificuldade foi a adaptação. Naquela época não tínhamos muitas condições. Não tínhamos uma sala de musculação em condições e outros serviços de treino.

Depois da Banca foi logo para o 1º de Agosto?

Antes de ir para o 1º de Agosto, passei pela Nocal, um clube que me lançou para os grandes campeonatos nas camadas jovens e seniores, sendo que depois fui para o Atlético Sport Aviação (ASA), onde conquistei dois campeonatos nacionais e, por último, o 1º de Agosto onde terminei a minha carreira.

Qual foi o momento mais memorável da sua carreira como jogador?

A partir do momento em que comecei a ganhar títulos no Atlético Sport Aviação (ASA). No clube aviador conquistei dois campeonatos nacionais. No 1º de Agosto venci nove campeonatos nacionais, oito Supertaças, cinco Taças de Angola e seis Taças dos Clubes Campeões Africanos. Na Selecção Nacional fui cinco vezes campeão africano e eleito duas vezes Melhor Jogador Africano em 2001 e 2003. Ganhei os concursos de smash e de triplos. Tenho 31 troféus individuais. Foram momentos inesquecíveis na minha carreira.

Como vê a evolução do jogo desde a sua época como atleta até os dias actuais?

O basquetebol de há 20 anos não é o mesmo que se pratica nos dias de hoje. Actualmente, temos um basquetebol mais dinâmico e explosivo com várias melhorias evidentes. A cada campeonato que participamos, demonstramos claramente que estamos a evoluir em diversos aspectos.

“Se hoje tenho uma vida organizada, devo muito a esta modalidade”

Quais são as lições mais importantes que aprendeu durante a sua carreira?

Com toda sinceridade, uma das lições mais marcantes que aprendi ao longo da minha carreira foi o impacto positivo que o basquetebol teve na minha vida ao me afastar do mundo da delinquência. Se hoje tenho uma vida organizada, devo muito a esta modalidade. Verdadeiramente, o basquetebol tem o poder de transformar vidas de maneira tangível.

Que conselhos daria aos jovens jogadores que estão a dar os primeiros passos?

No início, é sempre desafiador, aconselho os jovens que estão a começar no basquetebol a praticarem com responsabilidade e dedicação. É fundamental ter referências para ajudar a alcançar os objectivos.

Qual é a sua análise sobre o estado actual do basquetebol nacional?

Acredito que precisamos de trabalhar com afinco, especialmente na formação de novos talentos e na melhoria das infraestruturas. Perdemos a nossa hegemonia no continente africano por falta de investimento e massificação da modalidade. É crucial expandir o basquetebol para todas as províncias do país e estabelecer uma academia nacional para identificar e desenvolver talentos em todo o território angolano. Claramente que isso permitirá que jovens talentosos sejam descobertos, treinados e preparados para competir em alto nível, no sentido de termos uma selecção forte.

O que te entristece no cenário actual do basquetebol angolano?

O que me entristece profundamente é termos perdido a tradição e o respeito que tínhamos dentro e fora do continente africano no basquetebol. Precisamos de resgatar a nossa essência para reconstruir a nossa reputação.

O que lhe apraz dizer sobre o momento actual do 1º de Agosto?

Embora o momento não seja dos melhores, mantenho a esperança de que as coisas irão melhorar. Estamos a trabalhar incansavelmente pelo nosso clube e acredito firmemente que dias melhores virão. Digo sempre que a esperança é sempre a última a morrer.

Angola sediará o Afrobasket no próximo ano. Qual é a sua opinião sobre isso?

Como ex-atleta e actual treinador, vejo o nosso país como tendo boas chances de vencer a prova por estar em casa, com 50% de possibilidade. No entanto, enfrentaremos desafios consideráveis devido à qualidade dos adversários. É louvável a iniciativa do nosso governo e da federação em sediar o torneio, e devemos continuar a trabalhar com dedicação para que o título fique em casa.

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