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OPAÍS

A morte dos nossos Heróis

Jornal Opaispor Jornal Opais
12 de Maio, 2023
Em Opinião
A morte dos nossos Heróis

A morte de Rita Lee deixou a todos, principalmente a quem tem entre 50 e 60 anos, uma grande comoção.

Há cada vez mais heróis nossos a morrer.

A única diferença é que, enquanto eles antes morriam de overdose por viverem demasiado depressa, hoje morrem de cancro como nós. Será que já não são imortais.

Imaginemos assim.

O maluco beleza dá as boas-vindas a Rita Lee com um sorriso largo “Rita, você me traz ‘Ouro de Tolo’ quando penso em como você viveu tanto tempo.

Lá embaixo, a vida segue e nós, aqui em cima, só podemos observar.”

Ao lado, Cazuza esboça um sorriso encantado.

“Verdade, Rita. Mas é também um fato que ‘O Tempo Não Para’ e, mesmo aqui de cima é fascinante ver como nossa arte assume uma existência autônoma após a partida.

Talvez nossas mortes precoces tenham intensificado a apreciação por nossas melodias, nossas letras.”

Em nosso cenário imaginado, Raul Seixas, Cazuza, Renato Russo e Cartola acolhem Rita Lee em um éden musical.

Os ícones da música brasileira, cujas vidas foram ceifadas prematuramente, lamentam a perda, mas também expressam um vislumbre de inveja pela longevidade dela.

A forma e o modo como a morte é confrontada pelos artistas exerce um forte impacto na maneira como, depois, nos recordamos deles.

Se, por um lado, a morte prematura os envolve em uma aura de tragédia e romantismo, conferindo-lhes uma qualidade quase mítica; por outro, a carreira longeva permite a construção de um acervo vasto e evolução na sua arte, enriquecendo o legado, o que quase permite seccionar a sua carreira em diferentes fases, com autonomias diferentes.

Ninguém tem dúvidas que o Caetano Veloso de “Transa”, “Noites do norte” ou “O meu coco” pertencem a épocas e a “vidas” diferentes.

Será por isso mesmo que os artistas que viveram menos tenham deixado uma marca forte e ninguém tem duvidas que, com o seu desapareciemneto permaturo, ficamos sempre a perder.

Há, entretanto, na atualidade, um terceiro elemento nessa equação: a tecnologia.

A era digital desempenha um papel fundamental na preservação e disseminação da obra desses artistas, perpetuando-a e tornando-a praticamente úbicua, disponível para as futuras gerações.

Também por isso, hoje mais que nunca, a arte transcende a vida e a morte.

A despeito de terem vivido mais ou menos, nossos grandes ídolos conseuiram imortalizar-se e as suas obras estão aí, servindo-nos de lembrete.

A vida é sempre efêmera, a arte é sempre eterna. Como amantes da música, precisamos aprender a lidar com a morte de nossos ídolos.

Afinal, eles são seres humanos como nós, submetidos à mortalidade.

Valorizar e preservar o legado artístico por eles deixado é a melhor forma de honrar suas memórias.

Mas, para cada um de nós, mesmo que não o formulemos conscientemente, o mais trágico é perceber a “outra” dimensão do impacto da morte dos nossos heróis.

Como eles também representam a nossa juventude, o seu desaparecimento coloca-nos a todos mais perto da morte.

Esse é soco no estomago.

 

Por: JOSÉ MANUEL DIOGO

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