A Associação Juntas Somos Mais Fortes pretendia realizar, no sábado último (29), uma marcha em defesa das mulheres vítimas de violência doméstica. Com o lema “Nosso grito é justiça, não esquecemos, não nos calarão”, o colectivo feminino visava dar voz a todas as mulheres que frequentemente são violentadas
A marcha, que devia decorrer do Largo das Heroínas ao cemitério da Santa Ana, foi frustrada por agentes da Polícia Nacional quando as mulheres já se encontravam em prontidão para dar início ao evento.
Segundo contam as mulheres envolvidas no movimento, os agentes da Polícia Nacional justificaram a interrupção da marcha com a falta de aviso prévio às autoridades. Todavia, as promotoras do evento dizem o contrário, “uma vez que a actividade foi comunicada nas últimas semanas nas redes sociais e junto ao Governo Provincial de Luanda”, dizem.
A marcha estava prevista para iniciar às nove horas da manhã, mas o desiderato não foi cumpri- do quando, na hora combinada, as mulheres fizeram-se presentes no local, onde já havia efectivos da polícia. Efectivos estes que fizeram com que não fosse possível que as 14 mulheres da associação Juntas Somos Mais Fortes fizessem com que as suas vozes fossem ouvidas e que a mentalidade das pessoas fosse alterada, de forma a promover um melhor tratamento às mulheres.
“A polícia disse que não podíamos estar no Largo das Heroínas e que deveríamos dispersar, e nós recusamos, mas, depois de forte repressão, saímos dali e ficamos a uns 100 metros de distância. Ainda assim, a polícia voltou a nos interpelar, exigindo que nós tirássemos as nossas t-shirts, que tirássemos os nossos cartazes e que fôssemos embora”.
Continuaram, “foi assim que nós dissemos que estávamos na rua, num espaço público e que não sairíamos daí. Depois disso, resolveram então deter as organizadoras da marcha, sendo que as únicas que não foram detidas foram Celina Sebastião e Patrícia Gonga, com o argumento de que Celina Sebastião é uma mulher com deficiência, então a Patrícia Gonga deveria acompanhar a Celina Sebastião para casa”, afirmaram.
As activistas disseram ainda que, não sendo suficiente, para além da detenção das organizadoras da marcha, foram também detidas outras pessoas ligadas ao movimento, para além de terem confiscado todos os telemóveis das pessoas que estavam lá presentes naquele momento.
Tradição interrompida pela primeira vez
A marcha representaria, segundo contam, um posicionamento da parte das mulheres que serviria para chamar a atenção de todos a fim de perceberem que os casos de femicídio (crime praticado contra mulheres) e de violência contra a mulher, que são, muitas vezes, trivializados e esquecidos na sociedade.
Anualmente, o movimento Juntos Somos Mais Fortes organiza uma marcha de apoio às mulheres que promovem a mudança de mentalidade e comportamentos no que toca ao tratamento dado às mulheres e à participação das mesmas na sociedade. Essa tradição começou em 2019, quando o grupo foi criado.
De lá para cá, foram realizadas cinco edições, porém, diferente desta (que não se realizou), as primeiras edições foram organizadas no dia 8 de Março, para fazer jus à data. “Nós nos afirmamos no espaço público, pois entendemos que é na rua onde devemos gritar e mobilizar ou- tras mulheres a lutar pelas nossas lutas”, afirmou uma das integrantes.
Para além da marcha, a associação Juntas Somos Mais Fortes ocupa-se em realizar um conjunto de ações, nomeadamente a emancipação política, social e económica para as mulheres, com principal foco em zonas periurbanas e rurais e trabalhos de advocacia pelos direitos das mulheres junto das administrações municipais, para influenciar as políticas públicas do(s) município(s).
Entretanto, outras missões incluem o incentivo à educação menstrual para as meninas nas escolas, formações sobre estruturas nacionais, regionais e internacionais para o direito das mulheres e rodas de conversa sobre questões relacionadas aos direitos das mulheres. Para a educação menstrual, a organização tem um programa de colaboração com a Direção Municipal da Saúde sobre Educação e Saúde Menstrual.
A Associação, composta por 14 mulheres, não tem apoio do governo, uma vez que é uma Organização Não-Governamental (ONG), mas procura sempre fazer contacto com as instituições públicas a fim de influenciar as políticas públicas ligadas ao género feminino.