No final do dia de ontem, em pleno São Paulo, deparei-me com um grupo carnavalesco que percorria aquela circunscrição entoando as canções e evidenciando alguns dos passos que haviam apresentado um dia antes na Nova Marginal, durante o desfile central alusivo aos 50 anos de independência, a celebrar-se em Novembro do corrente ano.
Era assim em muitos bairros de Luanda, sobretudo na sua periferia nos finais dos anos 70, 80, 90, e até mesmo muito recentemente. Lembro- me da euforia que vivíamos no Cazenga, onde naquela fase pontificavam grupos como o União Estrela do Povo, União Tonessa, o primeiro carregado pelo lendário ‘Man Zeketa’, cujo tributo a esta causa já merecia um grande reconhecimento a nível das autoridades locais.
Essas foram algumas das memórias que me vieram quando ontem vi desfilar alguns dos principais intervenientes do nosso carnaval. Não há como falar de carnaval sem se ter em conta grupos como o Kiela, União Mundo da Ilha, União Njinga Mbande, Amazonas, Kazukuta do Sambizanga e tantos outros.
Nos dias que correm, por mais que se procure escamotear, não se pode falar de carnaval sem seter em conta o trabalho que vai sendo feito com esmero pelo União Recreativo do Kilamba, do grande comandante ‘Poly Rocha’, que se tornou, nos últimos tempos, o bicho-papão das edições desta festa popular.
Ontem, num comentário feito nas redes sociais, dizia um empresário cultural e desportivo, Yuri Simão, que ‘haverá um carnaval antes do Poly Rocha e outro depois do Poly Rocha’. Num jeito de brincadeira, sentenciando: ‘Tipo na Bíblia’.
A actuação do União Recreativo do Kilamba, que se vai tornando hábito, coloca-o entre os principais candidatos à vitória da presente edição, à semelhança do Kiela e do União Mundo da Ilha.
Porém, são indiscutíveis as transformações que os jovens comandados por Poly Rocha vão introduzindo no carnaval angolano, um caminho que indiscutivelmente os outros grupos carnavalescos deverão seguir, mantendo sempre ao lado o respeito pelas nossas tradições, mas não perpetuando a convicção de que um entrudo hoje ainda se assemelhe aos que vimos nos primeiros anos de Angola independente.
Mais do que um mero acto cultural em que os angolanos se devem lembrar a cada ano, os novos tempos vão exigindo que os grupos se profissionalizem, transformando, inclusive, o carnaval num autêntico instrumento empresarial e económico, devido às envolventes que cada edição já começa a merecer.
Já se nota o envolvimento de empresas e outros patrocinadores nos grupos carnavalescos, como se pode observar até mesmo com as suas siglas e nomes estampados nas suas indumentárias. Agora é necessário que se trabalhe na profissionalização dos grupos e em produtos que façam com que todos nesta altura regressemos à Marginal e às ruas como fazíamos noutro tempo.