Da oralidade à escrita – literatura tradicional angolana: uma questão pedagógica II

A praz-nos salientar, que a apresente abordagem argumentativa, embora seja apenas extracto, surge da reformulação de um artigo nosso que resulta de convite formulado pela Comissão Nacional para o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, na pessoa da Dra. Paula Henriques, para o Colóquio Internacional sobre Línguas Ágrafas, alusivo ao Dia da Língua Materna, cuja prelecção está marcada para o dia 27 de fevereiro de 2025.

Acreditamos que o presente colóquio se faz oportuno por razões antropológicas, políticas e, sobretudo, pela vasta esteira etnolinguística angolana.

Assim, propusemo-nos a uma abordagem construtivista e progressista por conta da dualidade conceitual de nação “angolana” que abarca o binómio relacional entre a esteira antropológica e política, que se acopla às línguas, entende-se aqui, como sistema semiótico, sistematizado e como produto cultural dos diferentes falantes.

Importa salientar, que à luz das sociedades de tradição oral, como é caso de Angola, uma das formas pedagógicas de transmissão de educação às novas gerações são as diferentes manifestações da literatura oral, contos, fábulas, adivinhas, mitos e provérbios, que traduzem, quer sob o plasma semântico, quer sob o plasma literal, a dinâmica sociolinguística dos variados segmentos que comportam as culturas dos diferentes povos que sustentam o imaginário angolano.

A finalidade pedagógica, até onde aferimos, sempre sustentou a construção da literatura oral. Por ora, para fundamentar o nosso argumento sobre a importância da literatura oral no panorama social angolano, recorremos à apelação do professor Benjamim Fernando quando alude sobre o funcionalismo significativo dos provérbios, por sinal, veículo de transmissão de princípios, de implementação da cultura da honestidade e do melhor servir “kyaku kyaku, kyangani kyangani – o que é teu é teu, alheio é alheio”.

Entende-se que que a função pedagógica consiste em: preparar os diferentes indivíduos que compõem a esteira sociopolítica para os futuros desafios, o de serem íntegros, comprometidos com o bem-estar colectivo.

Neste processo migratório da oralidade à escrita, assiste-se articulação entre a metáfora social e antropologia cultural que partem da oralidade e se concretizam na escrita como sistema de continuidade do vitalismo da oralidade por meio da palavra gráfica, por exemplo, em A Saúde do Morto, Os Funerais de Manguituka – o Terrível Bandido e Outros, Rosas e Munhungo, O Homem que Plantava Aves, Os Discursos do Mestre Tamoda, A Morte do Velho Kipacaça. Vejamos que os contos têm como finalidade a instrução e a formação social. Da oralidade à escrita compreende dois sistemas que apresentam tradições, influências e técnicas dicotómicas que, provavelmente, podem coabitar sem a omissão dos diferentes códigos que regem as suas estruturas enquanto instituições.

Daí que, embora a passagem da oralidade à escrita seja necessária, é peremptório que se mantenham os pilares da originalidade, sem o processo marginalizante da criatividade, e sobretudo toda a funcionalidade pedagógica da literatura oral.

A passagem da oralidade à escrita, caso concreto as adivinhas, todo o seu valor filosófico concernente ao exercício mental e à estimulação da imaginação são elementos que devem ser salvaguardados.

Os mitos, que geralmente se semantiza entre as fronteiras da verdade e da mentira, para o mosaico oral angolano subscrevem-se à educação acumulativa, isto é, como instrução e como educação, que é característica do tecido ontológico angolano. A literatura oral transmite, essencialmente, a cosmovisão dos diferentes grupos etnolinguísticos.

Pensamos que o processo migratório não inviabiliza a reinvenção dos seus elementos culturais no sentido de manter-se fiel aos traços caracterizadores que esqueletizam a literatura oral: formação preparativa e informação instrutiva aos diferentes agentes sociais em prol das comunidades.

Os provérbios traduzem a filosofia de vida, a visão que o povo tem, principalmente, a interpretação que faz sobre o mundo. Embora ao longo do seu percurso histórico e produtivo sofram algumas alterações que possam afectar os diferentes níveis, concretamente: estrutural, semântico, estilístico, o que origina também o surgimento de versões diferentes do texto tradicional, hipoteticamente, original.

 

Por: HAMILTON ARTES

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