Grupo “Os Bana Uíge” surge em meio às dificuldades com aspirações no humor

No início, em Junho de 2023, criavam apenas conteúdos amadores que também não eram divulgados, pois, no bairro onde residiam, na província do Uíge, os ambientes em que frequentavam eram muito cómicos.

Segundo Mambenza, o protagonista, na altura, com a vontade que tinham em criar conteúdos cómicos para o público, pela vocação que carregavam, idealizavam todas as técnicas necessárias para a produção de conteúdos de humor para o mundo digital.

“Eu venho de um município onde já praticava teatro e, ao me juntar ao Uless, que tinha uma grande força de vontade, e com mais um outro membro que é o Latoya, notámos que temos uma vocação para a criação de conteúdos humorísticos.

Mas só projectávamos fazer, porque não chegava a acontecer”, disse Mambenza. Depois de muita espera, ansiosos para partilharem com o mundo os seus talentos em matérias de humor, Mambenza e Ulesse, finalmente, gravaram o seu primeiro vídeo, em Julho de 2023.

Na altura, conta, tinha viralizado o meme “calçado pão”, muito engraçado, que circulava no Facebook. Foi assim que decidiram criar um conteúdo relacionado com calçados, mas que, infelizmente, não obteve êxito.

“A falta de equipamentos com boa qualidade para a gravação nos condicionou, porque a gravação tinha sido feita com um telemóvel de marca Itel, com pouca qualidade de imagem”, referiu Mambenza.

Depois da fraca adesão do primeiro vídeo, as investigações pelos conteúdos que catapultassem o grupo não pararam e, conforme nos contou o Ulesse, no mesmo ano, gravaram o segundo vídeo, que trouxe em evidência um dos temas mais marcantes na sociedade angolana: fuga à paternidade.

“Nós representámos uma peça que retratava a fuga à paternidade. Pegámos na realidade dos jovens que engravidam e fogem, e transformámos em comédia.

O título era “Agora no Uíge é assim”. Em poucos dias, fomos surpreendidos, porque aquilo viralizou!”, contou o Ulesse. Depois do êxito no vídeo sobre a fuga à paternidade, o grupo não mais parou e foi criando sempre conteúdos diversos para entreter o seu público, que crescia de forma esporádica.

Entretanto, por não possuírem ainda, na altura, uma página criada para o grupo, as publicações dos vídeos eram feitas no perfil de Mambenza, no Facebook. Entretanto, um ano depois, em Março de 2024, foi criada a página oficial do grupo, Os Bana Uíge.

Mambenza lembra que a escolha do nome para o grupo também foi uma dor de cabeça, por não terem ideia nenhuma sobre um suposto nome que se adequasse aos conteúdos do grupo.

“Houve muitas sugestões de nomes, alguns dos quais já nem nos lembramos mais. Eu lembro muito bem que dávamos uma tarefa a cada um de surgir com uma sugestão de nomes que a seguir seria analisada.

A melhor sugestão, que todos concordassem, ficaria. Chegámos a colocar “Os filhos do Uíge”. Mas, por sermos todos bacongos, decidimos traduzir na nossa língua materna a palavra “filhos”. E acabámos por ficar com “Os bana Uíge”, avançou Mambenza.

Entrada de Sofia no grupo

Sendo a única mulher em meio a dois rapazes, Sofia Mateus, conhecida como “Mama Sofia”, vencendo até as críticas da família, inclusive da própria mãe, que encarava as gravações da filha como uma brincadeira, conta como tudo começou para se juntar à caravana artística de Mambenza e Ulesse, nos meados de Setembro de 2023.

“Eu assistia aos vídeos. Reconhecio Ulesse, mas não conhecia o Mambenza. Ainda cheguei a duvidar quando reconheci o Raul no vídeo, porque eu já o conhecia. Num dia qualquer, o Ulesse passa pela minha rua, chamei-lhe e perguntei se era mesmo ele o moço do vídeo, e respondeu-me que sim”, contou Sofia.

Ao aperceber-se da oportunidade que tinha na sua frente de seguir avante com o gosto pela arte da encenação, Sofia apresentou as suas aspirações ao Ulesse e mostrou-se disponível em contracenar no grupo. “Eu disse ao Raul que também gosto muito de fazer essas coisas de teatro e que, se por acaso precisassem de uma menina para participar numa peça, estava disponível a participar sempre.

O Ulesse foi, deu a conhecer ao grupo e, passando-se dois ou três dias, fui chamada ao grupo e estou até agora”, disse Sofia. Muitas vezes confundida, Sofia explicou que o seu papel como esposa de Mambenza restringe-se somente à arte, pois, na vida real, não são marido e mulher.

Ideias dos conteúdos gravados

Filhos da terra do “bago vermelho”, onde tudo começou, Os Bana Uíge, com mais de 500 mil seguidores no Facebook, com um telemóvel, executam a gravação dos vídeos que, a seguir, na pós-gravação, são editados e partilhados por eles mesmos.

Pelo domínio de criação de conteúdos que carregava, por já ter feito parte de um grupo teatral, Mambenza conta que, no princípio, era ele o criador de todo o conteúdo, mas agora o cenário é mais participativo.

“Foi tudo um processo. Eu já tinha domínio de criar conteúdos por causa do teatro que fazia. Quando começámos, não trabalhávamos só na criação dos vídeos, eu olhava, também, as performances de cada interveniente da peça. Essas experiências fomos partilhando e, quanto mais a gente praticava, nos tornávamos mais participativos, e hoje todos já dão ideias para a criação de conteúdos”.

Para se distinguir dos demais fazedores de humor na Internet, Os Bana Uíge optaram por trazer conteúdos próprios, que passam pela representação de suas peças em zonas rurais da província do Uíge, de modo a preservar, também, a originalidade e a cultura de seu povo. Nas peças, Mambenza é marido de Sofia e compadre de Ulesse.

Dificuldades nas gravações e aquisição de equipamentos

Desde a formação do grupo, as dificuldades sempre rondavam em torno da aquisição de equipamentos para a gravação, visto que, na altura, as primeiras gravações tinham sido feitas com um telemóvel de pouca qualidade.

Segundo avançou Mambenza, para quem está na arte, a compra de equipamentos é custosa. “Quando se precisa construir uma coisa boa, dificuldades nunca vão faltar. São tantas as dificuldades.

De onde nós partimos, os equipamentos eram uma grande dor de cabeça. Começámos com um telemóvel Itel, que a seguir substituímos pelo Iphone 7 do Ulesse.

Esse iPhone nos levou a mais de 400 mil seguidores, sendo um grande catapultador para mantermos a nossa base”. Indo mais ao fundo, Mambenza conta que, além do acesso difícil aos equipamentos para a gravação, as dificuldades eram imensas, principalmente por serem criadores de conteúdos de uma província fora de Luanda.

Apesar de chegarem até aos 400 mil seguidores, ainda não tinham rendimento daquilo que produziam. Mas, a vontade de vencer fez com que superassem todas as dificuldades.

“E para nós que vivemos no Uíge, é mais complicado ainda. A valorização é diferente com relação à capital. Para publicitares uma loja no Uíge não é fácil.

O dinheiro que você recebe lá é muito inferior ao pagamento feito aqui em Luanda. Por outra, para apanhares um táxi para ires gravar num outro local da província do Uíge, era uma extrema dificuldade.

Portanto, até aqui onde nós chegamos, as dificuldades foram tantas. Mas a nossa vontade de vencer e o foco são maiores que as dificuldades que temos vivido”, finalizou Mambenza.

Do digital aos palcos

Com a necessidade de expandirem os seus trabalhos, que eram somente divulgados na internet, a transição do digital para a actuação em palcos foi difícil, todavia, segundo Ulesse, era imperioso que tal feito acontecesse. Hoje em dia, conta, por causa das suas criatividades, que desenvolvem dia pós dia, já são chamados para actuar em algumas actividades.

“A saída do digital para o palco foi mesmo difícil, mas, graças a Deus, a primeira actuação foi positiva e começámos por girar em alguns municípios do Uíge”, terminou Ulesse. Recentemente, o grupo tinha desembarcado na província do Cuanza Norte, cidade de Ndalatando, para cumprir com mais uma agenda do mês em curso.

Além desta, Os Bana Uíge já actuaram na província da Lunda Norte (por duas vezes) e Luanda, onde se encontram actualmente. Para a agenda do mês de Março, isso no dia primeiro, os filhos do Uíge vão desembarcar nas terras do património cultural do país, cidade de Mbanza Congo, província do Zaire.

Do Uíge a Luanda

Enquanto a estadia na cidade capital, Luanda, o grupo contou que, as gravações, nalgumas vezes, têm sido muito difíceis, porque a identidade do grupo é a transmissão da originalidade cultural do seu povo, que é o povo Bacongo.

Por este facto, pela ausência de zonas que se equiparem ao ambiente de uma aldeia da província do Uíge, o grupo tem de envidar esforços para conseguir movimentar todos os meios que possibilitem a gravação, nas zonas mais recônditas de Luanda. Quanto às parcerias, o grupo avançou que existem três empresas com quem têm relações contratuais com fins de publicidade.

No entanto, a deslocação do Uíge a Luanda foi, especificamente, para firmar mais parcerias e garantir as aberturas para outras actividades de modo a ajudar na massificação e desenvolvimento do grupo.

Apesar do número elevado de seguidores, ainda não ganham das redes sociais, pois ainda precisam de alguns inputs, incluindo a compra de equipamentos para proporcionar uma qualidade maior, para se auferir a partir do Youtube, que é uma plataforma que exige uma certa qualidade para pagar pelo serviço de divulgação de conteúdos.

Quanto à conta do Tik Tok, por esta ter sido criada em Angola, ela não é monetizada, ou seja, não paga. Para se ter rendimento desta plataforma, é necessário que se crie uma conta domiciliada num país que pague, como é o caso do Brasil.

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