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Carlos Lamartine apaga 80 velas com cantares e versos em poesia

Augusto Nunes por Augusto Nunes
3 de Abril, 2023
Em Cultura, Em Cartaz

O volume de 409 páginas chega aos leitores, fãs do cantor e compositor sob a égide da Mayamba Editora, num ambiente harmonioso onde a música e as memórias do autor foram a tónica dominante

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“Ser Poeta Em H a r m o n i a e Silêncios: Com Cantos e Cantares nos Versos em Poesia” é o título do recém-lançado livro do músico, compositor e intérprete, Carlos Lamartine.

O volume, com a chancela da Mayamba Editora, é uma compilação de cantares e poemas que segundo o autor a grande marca de África e dos africanos, nesta era Android, é somente a nossa Cultura. Uma Cultura muito própria, um ritmo-emoção que nos faz suar.

“Temos contos especiais, cantares que adormecem os leões da savana e um tam-tam que faz vibrar as paredes do coração”, disse Lamartine.

O também historiador, admite que se perca a nossa Matriz Cultural, só poderemos tornar-nos iguais aos outros, depois de perderemos a fala bantu para o mundo.

Já o músico António Sebastião Vicente “Santocas”, questionado quanto à percepção que tem da referida obra, considerou Lamartine um livro aberto, um viajante que deixa sempre um historial.

“Carlos Lamartine não deixa de ser um daqueles gigantes da música angolana.

Acho que tudo quanto ele produziu reflectiu-se nas suas próprias palavras, onde nós podemos beber um pouco mais das suas experiências”, realçou Santocas, adiantando que continua a reter o autor por vários factores, um dos quais relacionado à “Cidrália”, um dos temas musicais que nos idos anos 74, 75, sempre que fosse à província de Benguela, onde passava a maior parte dos seus fins-de-semana, tinha no percurso entre Catumbela e Bengula o tema retratado no interior da sua viatura.

Percurso artístico

José Carlos Lamartine Salvador dos Santos Costa nasceu em 1943 numa casa de pau-a-pique, por debaixo de uma grande árvore, num musseque na cidade de Benguela, onde foi crescendo com cinco dos seus irmãos.

O músico descreve a sua mãe como uma mulher muito amável, mas de um carácter e de temperamento rebelde: “Ela discutia muito quando se julgava com razão, estava sempre a contrariar. Também gostava muito de beber o seu copo de cerveja e quando bebia ficava muito teimosa.”

O pai era funcionário dos correios e nessa função viajava muito.

Tinha desistido do Seminário onde estudava e enveredou por uma vida mais mundana.

Onde quer que o trabalho o levasse, arranjava companhia e fazia filhos que depois iam viver para a casa da esposa oficial em Luanda.

Com a mãe do Carlos, ele teve cinco filhos.

Em 1953, o pai foi transferido para Luanda e levou o Carlos e duas irmãs com ele, num barco que tinha o nome de “Colonial”, que mais tarde ficou eternizado numa música do conjunto N’gola Ritmos.

Em Luanda, foram viver para o chamado Bairro Indígena, um bairro novo que fora destinado para os trabalhadores e funcionários negros de baixo rendimento social e que foram despejados do centro habitacional da capital.

A vida em Luanda

As condições de vida eram modestas, mas vindo da pacata cidade distrital de Benguela, o pequeno Carlos ficou impressionado com a dimensão e grandeza de Luanda.

O Bairro Indigena era cheio de vida e de pessoas interessantes, tendo na altura Lamartine encontrado figuras populares como o Lopo do Nascimento, Aristides Van-Dúnem, professor Mangueira, o Gabriel Leitão, a Dona Madalena, entre outras entidades de influência na sociedade africana daqueles tempos.

Figuras que inspiraram moral, ética e profundamente o espírito de defesa do bairro.

Além deles, Lamartine encontrou também muitos outros jovens de uma criatividade extraordinária; mais tarde, alguns viriam a ser personalidades influentes no país, tais como Tizinho Miranda, Círios Cordeiro da Matta, Fernando da Piedade e Tonito Fortunato.

Naquela altura, o passatempo preferido dos jovens do Bairro Indígena era futebol e a música dos grupos tradicionais.

Alguns procuravam jogar como o Matateu, o novo ídolo moçambicano que jogava no Belenenses.

Dissabores

Na escola, Carlos enfrentou alguns problemas, depois da violência experimentada na Escola Católica da Missão de São Paulo, frequentou a Liga Nacional Africana e depois o Liceu Nacional Salvador Correira, onde também estudaram o Primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, o segundo, José Eduardo dos Santos, José Mendes de Carvalho “Hoji Ya Henda”, o herói da Guerra de Libertação.

Mas, também, na geração de Carlos Lamartine havia alunos que viriam a deixar marcas na história do país. Os jovens distraíam-se muito com a práctica do futebol em vez de se aplicarem nos estudos.

Algumas vezes, quando os meninos negros chegavam do jogo, com os sapatos sujos, ficavam proibidos de entrar nas salas de aulas.

O racismo era grave, porque o grupo do Carlos era composto pelos poucos alunos negros numa escola maioritáriamente de alunos brancos.

Quase todos os alunos do seu tempo reprovaram no segundo ano e nesse mesmo ano, Carlos foi expulso do Liceu por blasfêmia, porque simplesmente não conseguia entender como uma virgem poderia dar à luz.

 

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