Um dia antes de ter apresentado o Estado da Nação ao país, o Presidente João Lourenço procedeu à inauguração do Memorial às Vítimas dos Conflitos Políticos no país. Numa cerimónia com muita pompa e circunstância, onde estiveram representadas figuras de vários quadrantes, entre políticos, líderes religiosos e personalidades da própria sociedade civil.
A obra imponente, erguida na Nova Marginal, em Luanda, foi construída no sentido de homenagear todos os cidadãos que morreram no país, na sequência dos conflitos que ocorreram entre 11 de Novembro de 1975 a 4 de Abril de 2002.
No referido período, além da guerra, houve outras acções que acabaram por ceifar vidas, entre as quais a intentona do 27 de Maio, queimada das bruxas na Jamba e outras mortes colaterais. Quem esteve no espaço, hoje visitado por muitos cidadãos nacionais, não deixou de tecer elogios.
Não só por conta da infra-estrutura em si, supermoderna, como sobretudo por conta do espólio e da representatividade político-histórica do país. Li e vi, inclusive, políticos da oposição, incluindo da própria UNITA tecerem elogios. Um deles, visivelmente emocionado, escreveu que ‘só faltava erguer uma estátua dos três líderes do movimento de libertação’, algures em Luanda, certamente. É que, no interior, Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi aparecem lado a lado.
O que para muitos parecia impossível, devido às desavenças e à forma como terminou o conflito armado no país, em 2002, acabou enterrado dentro do espírito ‘perdoar e abraçar’ que norteia este projecto, construído sob a alçada da Comissão de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP). A curiosidade de muitos fez com que, em menos de 10 dias, cerca de mil pessoas se tenham deslocado ao local para ver, reviver e conhecer os meandros das fases mais difíceis do país, para que um dia não se repita.
Estranhamente, dias depois, surgiram comentários contrários ao espírito aí depositado. Do lado da UNITA, por exemplo, surgiram desabafos da sua liderança, segundo os quais o líder fundador da sua organização, Jonas Savimbi, teria sido tratado de forma inadequada no interior do Memorial.
Entre as várias entidades presentes, a posição da direcção da UNITA terá sido das poucas indo em contramão àquilo que está espelhado no interior do Memorial. Nos dias que se seguiram, outros responsáveis da mesma organização, assim como anteriores, acabaram por esgrimir posições diferentes daquelas que foram passadas.
Na realidade, a relação da direcção do maior partido na oposição com a CIVICOP esfumou-se quando, em Dezembro de 2023, decidiu afastar-se da referida comissão, por dizer que não concordava com a condução de buscas e exumações de ossadas em zonas como a Jamba, e como supostamente o processo estava a ser gerido.
Não fosse, seguramente, a política de cadeira vazia, decidida há quase três anos, provavelmente ainda teria melhores esclarecimentos sobre as supostas incompreensões históricas que hoje dizem existir no Memorial, em que uma maioria se revê sem quaisquer ressentimentos. Tendo em conta os erros, os abusos e as atrocidades cometidas no passado que cada um pretende ver ultrapassados.








