A língua é um instrumento de comunicação, identidade e construção do pensamento. Contudo, o seu uso é frequente mente avaliado a partir de uma distinção nem sempre bem compreendida: a diferença entre erro linguístico e desvio linguístico. Embora os dois conceitos possam parecer semelhantes, a sua interpretação exige atenção ao contexto, à intenção comunicativa e às normas que orientam o uso da língua.
O erro linguístico ocorre, geral mente, quando um falante não domina ou não aplica adequada mente determinada regra da variedade linguística que pretende utilizar. Por exemplo, na norma padrão do português, a construção «nós vai à escola» não cor responde à concordância verbal esperada; a forma normativa é «nós vamos à escola».
Em contextos de aprendizagem, esse tipo de ocorrência pode revelar uma dificuldade na aquisição ou aplicação de uma regra gramatical. Por sua vez, o desvio linguístico pode designar um afasta mento intencional ou contextual em relação à norma-padrão, sem que isso implique necessariamente desconhecimento da língua.
Na literatura, na publicidade, na música e na comunicação quotidiana, os falantes podem alterar estruturas, explorar expressões populares ou recorrer a formas não convencionais para produzir efeitos estilísticos, afirmar uma identidade ou aproximar-se de determinado público. É importante, porém, não confundir toda a diferença linguística com um desvio intencional.
Muitas formas de expressão consideradas inadequadas pela gramática normativa pertencem a variedades regionais, sociais ou populares, com regras próprias. Como demonstra William Labov (1972), as variedades linguísticas podem ser estudadas sistematicamente, não devendo ser trata das como manifestações de incapacidade intelectual.
Neste sentido, a reflexão de Marcos Bagno (1999) sobre o preconceito linguístico é particularmente relevante para a realidade angolana, marcada pelo contacto entre o português, as línguas nacionais e diferentes variedades de uso. Uma construção diferente da norma-padrão não deve ser automaticamente interpretada como sinal de ignorância.
É necessário compreender quem fala, em que contexto e com que finalidade. Isso não significa, todavia, que todas as formas sejam igualmente adequadas em qualquer situação. A norma-padrão continua a desempenhar um papel importante na escrita académica, nos documentos oficiais e em outros contextos formais.
O desafio da educação linguística consiste em ensinar essa norma sem desvalorizar as variedades que os alunos trazem consigo. Em suma, distinguir erro linguístico de desvio linguístico exige mais do que corrigir palavras ou frases: exige compreender o funcionamento social da língua. Ensinar a norma-padrão não devesignificar silenciar a diversidade linguística, mas ampliar a capacidade de cada falante para comunicar com clareza, consciência e adequação em diferentes contextos.
Por: MÁRIO FILOMENO







