Leo Vinovezky considera legítima a pressão interna sobre o Primeiro-Ministro Benjamim Netanyahu e defende que o debate sobre o conflito deve assentar em factos. Ataques de 7 de Outubro de 2023 mataram cerca de 1.200 pessoas em Israel e levaram ao sequestro de 251 reféns
O embaixador de Israel em Angola, Moçambique, República Democrática do Congo e São Tomé e Príncipe, Leo Vinovezky, condicionou a perspectiva de criação de um Estado palestiniano à existência de garantias de segurança para Israel e de uma liderança palestiniana disposta a reconhecer o Estado israelita e a renunciar à violência.
Ao abordar, ontem, em Luanda, o terceiro aniversário dos ataques de 7 de Outubro de 2023, o diplomata defendeu que o debate internacional sobre o conflito israelo-palestiniano deve afastar aquilo que classificou como “slogans” e privilegiar o conhecimento dos factos e a compreensão das posições das partes envolvidas.
“A guerra não é entre Angola e Israel, por exemplo. A guerra é entre Israel e o terrorismo palestiniano”, afirmou, ao sustentar que o país enfrenta uma ameaça à sua segurança.
A declaração surge num contexto em que Angola tem defendido, em diferentes fóruns internacionais, uma solução negociada para o conflito, assente na coexistência de dois Estados. Questionado sobre esta posição, Vinovezky afirmou que a proposta não é nova para Israel, mas considerou que a sua concretização depende de condições políticas e de segurança que, na sua perspectiva, ainda não estão reunidas.
O embaixador criticou igualmente o que descreveu como políticas de incentivo ao terrorismo por parte da Autoridade Palestiniana, considerando que a continuidade dessas práticas dificulta a construção de uma solução pacífica.
“Não dá para falar de slogans. Temos de trabalhar concretamente”, declarou, sem apresentar, durante a intervenção, uma proposta concreta de calendário para a criação do Estado palestiniano.
Como alternativa de referência, o diplomata apontou os acordos de paz de Israel com o Egipto e a Jordânia, bem como os Acordos de Abraão, que permitiram a normalização das relações com os Emirados Árabes Unidos e outros países árabes. Para Vinovezky, estes entendimentos demonstram que a coexistência é possível quando há reconhecimento mútuo e disposição para negociar.
Pressão sobre Benjamim Netanyahu
A pressão interna sobre o Primeiro-Ministro israelita, Benjamin Netanyahu, nomeadamente por parte de familiares de reféns e de sectores da oposição, também esteve entre as questões colocadas ao diplomata, numa altura em que Israel se prepara para eleições legislativas.
Leo Vinovezky considerou que a existência de divergências sobre a condução da guerra e a gestão da questão dos reféns faz parte do funcionamento de uma democracia, mesmo quando as críticas são dirigidas ao chefe do Governo.
“Você pode ter a certeza que temos 10 milhões de primeiros-ministros”, ironizou, numa referência à multiplicidade de opiniões na sociedade israelita.
O diplomata explicou que o sistema político do país é parlamentar e assenta na formação de coligações. Por essa razão, a obtenção do maior número de votos por um partido não garante, por si só, a formação do Governo, sendo necessário reunir apoio suficiente na Knesset, o Parlamento israelita.
Israel tem eleições legislativas previstas para 27 de Outubro de 2026, segundo o calendário oficial da Comissão Eleitoral Central. A votação permitirá renovar a composição da 26.ª Knesset.
Sobre a influência das pressões internas na estratégia governamental, o embaixador não antecipou eventuais mudanças na posição de Netanyahu, mas defendeu o respeito pelas instituições e pelo pluralismo político.
Três anos após os ataques
Os ataques de 7 de Outubro de 2023 continuam a marcar a política e o debate público em Israel. Segundo a nota divulgada pela Embaixada israelita por ocasião do terceiro aniversário, a ofensiva foi lançada durante o Shabat, dia sagrado de descanso semanal judaico, e a celebração de Simchat Torah, festividade que assinala a conclusão do ciclo anual de leitura da Torá.
De acordo com o documento, entre 6.000 e 7.000 invasores participaram na ofensiva, a maioria identificada pela Embaixada como membros do Hamas e da Jihad Islâmica. Os atacantes entraram em território israelita a partir da Faixa de Gaza, depois de uma barragem de foguetes e da ruptura das barreiras fronteiriças, atingindo comunidades, instalações militares e locais frequentados por civis.
O ataque provocou cerca de 1.200 mortos e levou ao sequestro de 251 pessoas, transportadas para a Faixa de Gaza. Os números são também referidos pela agência Reuters na cobertura do terceiro aniversário dos acontecimentos.
Na nota, a Embaixada afirma que os reféns foram submetidos a maus-tratos, tortura e privações durante o cativeiro. O documento contabiliza ainda 1.318 membros das Forças de Defesa de Israel mortos desde o início do conflito, número que deve ser entendido como um balanço apresentado pela representação diplomática.
Em resposta aos ataques, Israel lançou operações militares de grande escala na Faixa de Gaza, com o objectivo declarado de desmantelar as estruturas do Hamas e garantir a segurança do país. A ofensiva israelita provocou, por sua vez, dezenas de milhares de mortos palestinianos e uma extensa destruição do território, segundo dados das autoridades de saúde de Gaza citados por agências internacionais.
Vinovezky afirmou que Israel procura garantir a entrada de alimentos e medicamentos na Faixa de Gaza e que as forças israelitas recorrem a avisos prévios para reduzir os riscos para a população civil. Estas declarações traduzem a posição apresentada pelo diplomata sobre a condução das operações militares.
O embaixador defendeu, por fim, que a análise internacional do conflito deve considerar as preocupações de segurança de Israel, sem impedir o debate, as críticas ou a apresentação de posições divergentes.
“Julgar Israel e acusar Israel é muito fácil. O desafio diferente, difícil, é compreender”, concluiu.







