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Contos d’outros tempos: Dor de Lemba – Vidas de Ninguém (XI)

Domingos Bentopor Domingos Bento
13 de Fevereiro, 2026
Em Opinião

Por detrás daquela mbunda que marcava na saia, dos seios maboques e do sorriso disfarçado, Lemba guardava um mundo de tristezas que vinha de muitas mágoas, apegos e juras de amor não correspondido. Mas, pelo bairro, as pessoas não a compreendiam. Até parecia que era vontade dela chegar àquela idade de quarentona sem marido e filhos. “Todas as miúdas daqui já casaram, mas essa mesmo só é que não lhe tiram da casa dos pais.

Reh, tem azar ou quê!”, comentava a tia Enriqueta, enquanto conversava com a Mana Belinha, tida como a grande fofoqueira do bairro. Por causa daquela boca e do hábito feio de se meter na vida das pessoas, a Mana Belinha já foi espancada várias vezes pelos miúdos do bairro. Mas, mesmo assim, não parava com a fofoca, principalmente quando se tratava da vida de Lemba, miúda de respeito, religiosa e membro do grupo coral da Paróquia de Santa Madalena, que ficava junto à entrada da Rua das Pedrinhas, uma das zonas mais podres do nosso bairro.

É que ninguém conseguia transitar por ali, sobretudo sempre que chovesse. Eram constrangimentos, águas paradas, lamacentas e deslizes. Mas, mesmo no meio daqueles perigos, Lemba nunca faltou sequer um dia ao culto, onde rezava, entre várias súplicas, pela sua pouca sorte no amor. “Ngana Nzambie, por que será essa pouca sorte que me persegue? Não matei ninguém, não traí ninguém, mas a sorte foge- me como se eu tivesse feito mal a alguém”, lamentava Lemba enquanto andava pela rua principal.

A tia Fuchinha, irmã do pai, já dizia que Lemba tinha marido da noite e chide deixados pelos antepassados. Para espantar esses males, ela precisava banhar-se nas águas doces do rio Kwanza, fazer rezas, dar de comer aos jacarés com óleo de palma, fuba de bombom e invocar os antepassados, exigências que Lemba se recusava a cumprir, porque não quis pagar por algo que não fez. Mesmo com a sua pouca sorte, Lemba acreditava simplesmente em Deus e no poder da oração para quebrar as maldições que serviam de motivo de chacota para os vizinhos do bairro.

É que, apesar dos vários insultos e piadas, Lemba também sabia que cansava sair com dois, três e um número infinito de homens até encontrar o certo, o que poderia levá-la ao altar. De tantos julgamentos no bairro, sobretudo das moças da sua geração, Lemba sabia que cansava abrir as pernas para vários, carregar várias almas, vários corpos e chegar aos 40 anos de idade sozinha.

Ficava sozinha porque os homens mentiam e enganavam. Uns foram com outras. Outros voltaram para as mães das crianças, que juraram já não sentir nada. Mas foram apenas palavras de excitação. E, no contar dos dedos, com eles, Lemba ficou um, dois, três, cinco e perto de dez anos. Nada de sólido no final, senão esperanças amargas, sexo e promessas que o vento levou. No partir para o recomeço, Lemba conheceu o António, o João, o Sérgio e o André. Eram outras conversas, outras histórias, novos apegos e novas perspectivas. Talvez o verdadeiro fosse o Sérgio.

Mas foi por Mateus que, mais uma vez, ela se apaixonou e entregou tudo. Jurou amor, apresentou-o à família, disse ser o último e até fez rezas às madrugadas, pedindo a Deus que iluminasse o caminho dele para continuarem juntos. Pela manhã, enviava mensagens; à noite, desejava sonhos coloridos e, no coração, fazia planos. Planos do vestido de seda, dos sapatos cor-de-rosa, do véu transparente e da peruca igualzinha à que Maria, sua melhor amiga, bem-casada, usou no dia do seu enlace com José.

Mas, aí, três, quatro, seis meses e até um ano passaram, e Mateus não se definia. Ela começou a perceber que Mateus era mais um. Mas, ainda assim, depositou nele a confiança, uma vez mais. Só que Mateus já havia provado todo o seu mel e estava mesmo nem aí para Lemba. As horas passavam, a noite chegava, mas nada de Mateus.

Sequer uma mensagem. Foi-se embora. E, das poucas vezes que tentou aparecer, era para transar outra vez, porque sentiu saudades da última vez que o fizeram. Ainda por cima de acender a chama do amor no coração de Lemba e não corresponder-lhe, Mateus foi casar-se com Leninha, vizinha da rua detrás da casa de Lemba. Com Leninha, fez filhos e diziam, inclusivamente, que tiveram uma grande boda de casamento no salão do Kapredio.

Toda a gente já sabia das fracturas de Mateus com Leninha. Apenas Lemba era a única que estava alheia aos chifres que, vergonhosamente, lhe estavam a ser aplicados, até ao ponto de Mateus deixá-la completamente. “Essa miúda tem mesmo chide. Até esse bardeado do Mateus a trocou pela Leninha… Essa mboa tipo não vai arranjar mais marido. Vai morrer solteira na casa dos pais”, comentavam na esquina da rua os putos Joca e Simoni, enquanto apreciavam Lemba passar, cabisbaixa, de rosto amargo e completamente abatida.

“Conforme ela é enganada no amor, se a vergonha actuasse nas pernas, essa dama nunca mais devia baixar as cuecas para um homem. Possas, ninguém cola na vida dela. Deve ter um chide mesmo dos grandes. Coitada, tem chingo dos antepassados”, continuavam os dois amigos, apontando o dedo a Lemba que, meses depois, saiu à rua, refez a peruca, retocou a maquilhagem e procurou dar-se mais uma oportunidade no amor. Ao abrir-se para o mundo, conheceu novos candidatos ao seu coração. E Lemba corria contra o tempo que, para ela, era uma dura pressão, porque todas as amigas de infância já estavam casadas, tinham filhos, maridos e esbanjavam felicidade pelo bairro.

E ela, a titia dos sobrinhos, todos os dias fazia contas à vida. Já somava 42 anos, o útero já começava a dar sinais, no relatório médico surgiram miomas, a carinha de miúda foi dando lugar ao rosto de uma mulher adulta, os seios perderam a dureza, o brilho e o olhar já era mais sério. Olhava-se ao espelho e via tristeza. Por dentro, sentia carência… Os tios e as tias, diariamente, perguntavam-lhe quando é que ia mandar vir um bebé, quando devia apresentar o genro, quando sairia da casa da mãe, quando também seria a vez dela de reunir as primas e abrir o salão. No dia seguinte, Lemba levantou-se, afinou a beleza, esquinou a rua e seguiu para o serviço. Enquanto passava pela rua, aos cantos, viu um monte de vizinhas a murmurar sobre ela:

“Mas essa ainda não casou?”

Mas, naquele dia, ela não poderia mais ficar calada diante dos insultos. Quis tirar para fora toda a dor e mágoa que carregava. “Carambas, mas não fui eu que pedi esse destino. Eu também sonho amar, criar família e ter marido. Ah, se eu pudesse casar comigo mesma”, desabafou Lemba no meio da vizinhança, que a ouvia atentamente, por ter sido o primeiro dia em que ela se abriu para expulsar toda a dor.

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