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OPAÍS

Fases da bigorna no meu país

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
1 de Janeiro, 2026
Em Opinião
Fases da bigorna no meu país

A DR Bigorna é um bloco maciço de me tal (ferro, aço) com superfície plana, usado por ferreiros e artesãos para moldar metais aquecidos com martelos, servindo como base firme e resistente para forjar, afinar ou curvar peças como espadas, ferraduras e ferramentas.

A bigorna é imóvel, silenciosa e resistente. Não fala, não aconselha, não consola. Limita-se a suportar o impacto necessário para trans formar o ferro bruto. Nada se mol da sem passar por ela. Nada se for talece sem pressão. Assim também acontece com as pessoas e com as nações.

É sobre a bigorna que o ferro é colocado, sem pedir licença, para ser moldado pela força do martelo. Primeiro vem o choque. Depois, o barulho. Mais tarde, a forma. E, no fim, o destino do objecto depende da resistência do material. Assim tem sido Angola, colocada repeti das vezes sobre a bigorna da His tória. A primeira fase da bigorna é o fogo.

O ferro precisa ser aquecido até perder a rigidez. É o calor que o torna maleável. Na vida colectiva, o fogo representa a crise. Crise económica, social e moral. Angola vive, há anos, nesse calor intenso. É a fase em que o impacto surpreende.

O país sente o peso das decisões políticas, muitas vezes toma das longe da realidade do povo. As reformas chegam como pancadas bruscas. Não há preparação emo cional nem social.

A sociedade reage com medo, silêncio ou revolta contida. É o primeiro contacto com a bigorna. Dói, mas ainda há esperança de ajuste. O aumento do custo de vida, o desemprego e a pobreza persistente, assim como a fragilidade dos serviços públicos, são sinais claros desse fogo. Somam-se a isso a descrença nas instituições e o cansaço de um povo que resiste todos os dias. O fogo não destrói por si só, ele ape nas revela o que precisa ser trans formado.

A segunda fase é colocar o ferro sobre a bigorna. Aqui não há fuga possível. O metal precisa estar exposto, vulnerável e disponível. Na sociedade, esta fase exige assumir responsabilidades, olhar para dentro, reconhecer falhas e abandonar desculpas. Aceitar que a mudança começa em cada um. Durante muito tempo, Angola habituou-se a transferir culpas.

A responsabilidade é sempre do outrum. Do político, do sistema, da história, das circunstâncias. Tudo isso pesa, mas não absolve. Uma sociedade só amadurece quando assume o que tolera e decide não repetir os mesmos erros.

Leia mais em…

Por: YARA SIMÃO

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