Não haverá em África um país mais interessado na paz na República Democrática do Congo do que Angola. A extensa fronteira entre os dois países faz com que estejam de algum modo alinhados na busca de uma solução para os diferendos que os afligem, conscientes de que o agudizar da situação político-militar num deles, o outro terá, inevitavelmente, consequências.
Desde a época colonial que assim acontece, quando milhares de angolanos, depois da República Democrática do Congo, o então Zaíre, se ter tornado independentes do regime colonial belga, acabaram por acolher estes civis e até mesmo representações dos antigos movimentos de libertação de Angola, com ênfase para a UPA/FNLA, de Holden Roberto, e o MPLA.
O mesmo se pode dizer em relação aos últimos incidentes ocorridos em território congolês, cujas consequências ainda se fazem sentir com a presença de deslocados no município do Lôvua, na Lunda-Norte, e de tantos outros cidadãos congoleses que todos os dias tentam penetrar no país através da extensa fronteira.
A paz no Congo é um desiderato que qualquer angolano são apregoaria, independentemente de quem venha a ser o mediador dos conflitos que assolam o vasto território do país vizinho. Actualmente, é com o M23 – que se diz apoiado pelo Ruanda – que as autoridades oficiais congolesas buscam uma solução política, em negociações que inicialmente passaram por Luanda, Angola, onde se esperava nos últimos tempos que viesse a ser selado os acordos definitivos.
Por mais vontade política que exista de quem medeie, as posições dos mediados devem estar em sintonia para que os resultados esperados possam, finalmente, dar frutos.
No caso congolês, que recrudesce ano após ano com novos actores políticos e até beligerantes, não tem sido fácil avistar pontos coincidentes, ou seja, capazes de satisfazer os interesses das partes.
Com os últimos desenvolvimentos no processo, que culminaram com um encontro no Qatar entre os presidentes Félix Tshissekedi, da República Democrática do Congo, e Paul Kagame, do Ruanda, espera-se que se consiga então o tão esperado acordo que restaure a paz nas regiões congolesas mais conturbadas neste momento.
Para já, os sinais emitidos por um dos contendores, no caso o M23, apontam para a intensificação do próprio conflito. Embora continue a ser uma pedra nos sapatos angolanos, por conta das consequências vindas da RDC, Angola procura agora assumir um outro papel.
Segundo o comunicado tornado público ontem, “passados quase dois meses de ter assumido a Presidência pro tempore da União Africana, Angola considera a necessidade de se libertar da responsabilidade de medianeiro deste conflito do leste da RDC, para se dedicar de forma mais ampla às prioridades gerais definidas pela organização continental, que se prendem com a paz e segurança do continente no seu todo, às infra-estruturas, ao comércio livre continental, à luta contra as epidemias, endemias e pandemias, ao desenvolvimento económico e social e à justiça aos africanos e afro-descendentes através de reparações”.
O documento indica que, “com a Comissão da União Africana, serão dados nos próximos dias os passos necessários para se encontrar o país cujo Chefe de Estado, coadjuvado pela SADC, a Comunidade da África do Leste e os facilitadores, deverá assumir a mediação do conflito entre a RDC e o Ruanda”.