Considerado como um dos estilos musicais mais populares de Angola, o Kuduro, segundo os seus fazedores, apesar da sua grande visibilidade e da notável popularidade que acarreta, ainda se debate com o cenário controverso que o coloca na lista dos estilos musicais menos valorizados do país. A sua expressão artística ainda é, nos dias de hoje, quase sempre, associada à marginalização, ao vandalismo e à arruaça, o que contribui para a sua pouca valorização no panorama cultural nacional
Tido como um dos mais (se não o mais) populares estilos musicais de Angola, o Kuduro surge em 1989, primeiro como estilo de dança, por meio do artista Tony Amado e, anos mais tarde, como estilo de música, na década de 1990.
Enquanto estilo musical, o kuduro ganhou notoriedade e desenvoltura no princípio do ano 2000, com a intervenção de outros actores, como Sebem, Máquina do Inferno, Fofandó, Dog Murras, os Lambas, Salchicha e Vaca Louca, Puto Prata, Noite e Dia, Bruno M, entre outros, que mais tarde deram outra roupagem ao estilo que está em constante evolução até aos dias de hoje.
Com uma popularidade incomensurável, como avançam os seus fazedores, é o estilo musical que mais tem retirado jovens dos caminhos erróneos, como da droga, da prostituição e da delinquência.
Embora seja um estilo musical jovem, em termos de anos de existência, com menos de 35 anos desde o seu surgimento, o Kuduro foi conquistando cada vez mais espaço no mercado musical nacional, tornando-se numa marca indelével no panorama cultural nacional com características próprias que a distinguem de todo e qualquer outro estilo no mundo.
Por ser predominante nos guetos, bairros com elevado índice de carência e de criminalidade, é no Kuduro que vários jovens encontram o refúgio para não se perderem em caminhos impróprios e conseguirem dar asas aos seus sonhos.
Vários são os exemplos reais de artistas que se tornaram famosos e viram suas vidas tomar outros rumos através do kuduro.
O grupo musical os Lambas (conjunto formado no final da década de 1990, por Amizade, Nagrelha, Bruno King e Andeloy), que na época eram associados a práticas criminosas, mas que encontraram na arte um caminho diferente, são um exemplo prático do “poder” transformador que o Kuduro tem de mudar a vida dos jovens que se dedicam a ele.
Os Defaya, os Trubantu, os Kalunga Mata, Bruno-M, Puto Lilas, Rei Panda, Noite e Dia e Puto Prata, Fofandó, Nayo Crazy, os Vagabanda e tantos outros são alguns dos nomes de artistas ou grupos musicais de renome que têm (ou tiveram) o Kuduro como a bússola certeira que os tirou ou evitou que caíssem na delinquência e deu-lhes um outro propósito de vida, alguns dos quais até hoje sobrevivem desta arte.
Nos dias actuais, nomes como Russo-K, Passing Toloba e K2, Pai Profeta, Jéssica Pitbul, Delério King, e mais recentemente o artista Mano Chaba (de feliz memória) são a prova mais recente da força transformadora que o Kuduro tem trazido para a vida de muitos jovens, dando-lhes a oportunidade de sonhar e realizar os seus sonhos através da sua manifestação artística.
Marginalização do estilo
Actuamente, apesar da sua grande notoriedade e popularidade, o estilo continua sendo pouco valorizado, e a sua expressão artística vem sendo sempre associada a práticas de marginalização, vandalismo e arruaça, como queixam-se os fazedores desta arte.
Fofandó, a primeira mulher a cantar o estilo, isto ainda no ano 2000, entende que o kuduro, pela sua repercussão e dado o impacto que teve e continua tendo na promoção dos estilos musicais nacionais, devia ser mais e muito melhor valorizado, sobretudo os seus fazedores.
A kudurista, que tem mais de 25 anos de carreira, recorda que quando começou a cantar, o estilo era altamente marginalizado e desprezado, considerado um estilo musical de “bandidos” e que incitava a violência e a arruaça.
“Quando comecei, o kuduro naquela época era visto como um estilo de bandidos, um estilo para drogueiros e frustrados, as pessoas só olhavam para nós como malucos e desprezavam a nossa arte.
Era uma época muito difícil, mas, graças ao esforço e muito trabalho, conseguimos virar o quadro e hoje já somos aceites e valorizados pela sociedade”, expressou a artista em declarações ao OPAIS.
Apesar de reconhecer alguma evolução na forma como o estilo é visto e aceite pela sociedade e pelas entidades culturais, Fofandó diz que ainda assim o kuduro é pouco valorizado e que merecia muito mais dada a sua importância e o quanto tem contribuído para o desenvolvimento da cultura nacional.
A artista defende uma maior abertura para o estilo e os seus fazedores, reforçando que é preciso desconstruir a ideia de que “alguns estilos de música são mais importantes que outros”.
“Somos todos artistas e não devia existir essa desvalorização só porque um canta kizomba ou semba e outro canta kuduro, todos contribuímos para a valorização da nossa arte, da nossa cultura e é isso que devia ser levado em conta”, contestou a artista.
Fazedores de kuduro sentem-se ‘desprezados’
Associada à queixa da falta de valorização do estilo está uma situação que os artistas dizem ser pior, o “desprezo” que é dado aos kuduristas mesmo quando as suas músicas são um sucesso.
Segundo o compositor dos Lambas, Andeloy, o Kuduro, enquanto estilo, já tem alguma valorização, mas os kuduristas são desvalorizados, mesmo até quando as suas estão a fazer sucesso no mercado.
Neste sentido, Andeloy reforça que a valorização do estilo deve reflectir sobre os seus fazedores e não ser um cenário de contraste onde “a música é aplaudida, mas o artista é desvalorizado”.
“Se reparamos, o kuduro até já está a ser valorizado, não na sua totalidade, mas já se nota alguma valorização, mas os kuduristas ainda são desvalorizados. Infelizmente, ainda somos vistos como marginais, analfabetos e arruaceiros, mesmo até quando as nossas músicas estão a fazer sucesso”, contestou o artista.
O artista, que já leva mais de 20 anos de carreira e é responsável por mais de 90% dos sucessos musicais dos Lambas, que foram escritos por si, afirma que a valorização do estilo é uma realidade que abrange directamente os seus fazedores e não uma “realidade paralela ou oposta”.
Sem receio, Andeloy diz reconhecer que o seu grupo tem algum diferencial neste quesito devido ao nome e ao peso que tem no mercado, fruto de um trabalho árduo que já leva mais de 25 anos, entretanto, realça que a maioria dos artistas do mesmo estilo musical ainda debate-se com a “desvalorização” do seu trabalho e do próprio artista em si.
“Os Lambas são excepção, apesar de tudo, Lamba é uma marca pesada no mercado, já não vivemos esta realidade que antes também já enfrentámos, mas os outros artistas, pelo que tenho visto, ainda se queixam da desvalorização dos seus trabalhos e uns até mesmo são desrespeitados nos eventos”, denunciou.
Face ao cenário, o artista apela à mudança de postura por parte da sociedade em geral, em particular para os organizadores de eventos, assim como à envolvência das instituições culturais de direito no sentido de ajudarem na inversão do actual quadro.
Baixos pagamentos nos espectáculos reflectem a discriminação do Kuduro
Aprática de desvalorização do Kuduro, segundo os seus fazedores, tem sido constada de várias maneiras, com maior incidência nas questões que têm a ver com o pagamento dos artistas deste estilo quando são convidados a actuar num espectáculo musical.
De acordo com o kudurista K2, em várias ocasiões os fazedores de kuduro são tratados de um jeito diferenciado (pela negativa) em relação aos artistas de outros estilos seculares, quando convidados para os shows. K2 revela que os pagamentos atribuídos aos kuduristas estão maioritariamente sempre muito abaixo do que é pago a outros artistas.
“Num show, por exemplo, o organizador é capaz de pagar uns dois ou três milhões a um artista de semba ou kizomba, mas se for a um kudurista quer dar apenas 300 mil kz.
E isso tem sido recorrente. Esta forma de tratamento é discriminatória e só demonstra que as pessoas não respeitam e não valorizam os kuduristas”, reclamou o artista.
O mesmo adianta que há situações em que os kuduristas são os que mais animam os espectáculos, mas ainda assim são colocados de parte e tratados sem valor, com pagamentos precários que demonstra desrespeito à classe.
Quem também se queixa da “discriminação” do kuduro na altura do pagamento é o artista DJ Loló, que apela à intervenção das entidades de direito para que se coloque um fim a esta prática que o mesmo considera estar a manchar a classe artística.
Apelo a um Kuduro mais consciente e responsável
Na visão do DJ Loló, a aposta na promoção de um kuduro cada vez mais consciente e responsável pode ser um caminho ideal para ajudar a melhorar o actual cenário e impulsionar a valorização do estilo.
O autor do sucesso “Liamba” entende que, até certo ponto, a pouca valorização do estilo é resultado da fraca qualidade, quer em termos de produção artística, quer de conteúdo, que certos Kuduristas trazem ao mercado. “É bem verdade que o kuduro tem sido pouco valorizado, mas às vezes essa situação é também resultado do comportamento e dos trabalhos apresentados por nós próprios kuduristas”, ressaltou o músico e produtor. Dj Loló disse reconhecer que certas músicas feitas por Kudurista não têm qualquer tipo de mensagem construtiva ou que ajudem na transformação da sociedade e isso, no seu entender, tem também contribuído para a desvalorização do estilo.
Nesta senda, apela aos colegas a melhorarem nas suas composições para que se possa ter um trabalho final com a qualidade minimamente aceitável. “Há uma necessidade de revermos os nossos conteúdos e fazermos um kuduro mais consciente.
Temos que trazer ao público músicas com boa qualidade, com mensagens que ajudem a transformar a sociedade e a mudar a consciência das pessoas”, indicou.
Associação dos Kuduristas luta pela união da classe e valorização do estilo
Com foco na união da classe e na preservação e valorização do estilo, a Associação dos Kuduristas de Angola (AKA) diz estar de olho naquilo que são as preocupações que afligem aquela classe artística e tem procurado, apesar das limitações, formas de contrapor as dificuldades e melhorar a situação actual.
Em declarações ao Jornal OPAÍS, o presidente da AKA, Albino Inglês, artisticamente conhecido por BBlcak, avançou que a associação, existente legalmente desde 2018, tem trabalhado arduamente no sentido de colmatar as várias carências que a classe kudurística enfrenta, entre as quais a valorização do estilo e dos seus fazedores.
“Esta é uma questão que a associação tem conhecimento e temos estado a trabalhar para a melhoria da situação”, assegurou o presidente da AKA.
Por outro lado, o mesmo entende que a desvalorização dos artistas não é apenas uma questão que afecta a classe dos kuduristas, mas que ela é transversal a todas as outras áreas.
“A exclusão e a desvalorização não é só no kuduro, tem sido uma realidade para a maioria dos artistas. Tem artistas que são valorizados e pagos bem só porque têm ligações com os organizadores de eventos ou porque são militantes do partido A ou B”, denunciou.
Realçou, que a valorização depende, sobretudo, dos próprios kuduristas, desde a maneira como este se apresenta, como se posiciona diante da sociedade e principalmente o tipo de mensagem que passa ao público através das suas músicas.
“O kuduro já foi aceite há muito tempo, e isto foi de uma forma natural, a arte não tem limite, a sociedade é que deverá filtrar o que quer consumir”, ressaltou.
Vandalismo e arruaças em funerais de kuduristas também preocupa a AKA
Outra preocupação manifestada pela Associação dos Kuduristas tem a ver com o triste cenário que se tem observado nos cortejos fúnebres de artistas daquele estilo musical.
B-Black defende que os kuduristas por si só não são arruaceiros, apesar de o estilo ser continuamente marginalizado, mas que tem havido indivíduos que, fingindo serem fãs dos artistas ou amantes do estilo, aproveitam-se dos funerais dos mesmos para executar práticas criminosas, que a AKA reitera serem reprováveis. “Nós, os kuduristas, não somos arruaceiros, mas há aproveitadores a todos os níveis.
É preciso entender que os óbitos em África são de pertença da família, agora, quando é de uma figura da classe de kuduro, nós, os colegas, procuramos dar o nosso apoio, mas há sempre pessoas tentando se aproveitar para fazer suas práticas criminosas, o que nós reprovamos”, reforçou.
Albino Inglês, ou simplesmente B-Black, apela às autoridades policiais a reforçarem o controlo e as actuações em funerais de Kuduristas de modo a evitarem incidentes que, além de mancharem o kuduro, mancham a cultura nacional e o país em geral.
O presidente da AKA apela igualmente ao respeito e à valorização dos artistas que têm dado o melhor de si para promover e manter o kuduro como um estilo de referência nacional e internacional.
Defende que o valor ao artista, assim como em qualquer outro profissional, deve ser dado quando ainda em vida e não apenas reconhecer o seu contributo quando este já não parte do mundo dos vivos.
Fez saber que a AKA está representada em 12 províncias do país e conta com 4.827 kuduristas inscritos, mas, infelizmente, menos de 10 membros pagam as quotas mensais regularmente.
Poucos kuduristas aderiram à carteira profissional do artista
Num universo de mais de 4 mil artistas fazedores de Kuduro, reconhecidos pela Associação dos Kuduristas de Angola, pouco menos de 50 têm a carteira profissional do artista.
De acordo com o presidente da carteira profissional do artista (CCPA), Maneco Vieira Dias, o número de kuduristas que até ao momento aderiram à carteira profissional é ainda muito baixo se olharmos para o universo de artistas deste gênero oficialmente reconhecidos.
Entretanto, Maneco garante que a CCPA tem feito um trabalho conjunto com a AKA com o objectivo de incentivar os kuduristas a aderirem à carteira profissional, através da realização de encontros e palestras a explicar a importância da referida documentação.
“Às vezes temos encontrado alguma falta de entendimento por parte da classe sobre o papel e a importância da carteira profissional, mas graças a Deus não tem havido nenhuma resistência da parte deles e aqueles que são convidados pela AKA têm procurado aderir sem qualquer problema”, adiantou o responsável.
Maneco Dias explicou os procedimentos necessários para se ter acesso à carteira profissional do artista e sublinhou ser um processo rápido, que leva entre 15 a 20 dias para o solicitante ter a carteira em mão.
“Basta que o artista seja um profissional da área a que diz pertencer e que tenha no mínimo cinco anos de carreira comprovada”, explicou.
Realçou que a outra condição imposta é que o artista faça parte de uma organização ou associação legalmente reconhecida na sua área de actuação, mas clarificou que esta condição pode ou não ser exigida, a depender da idoneidade do artista.
Kudurista com carteira profissional
Ainda de acordo com os dados avançados pelo presidente da CCPA, da base de dados da comissão constam nomes de kuduristas como Noite e Dia, Delério King, Pai Diesel, Dj Naile, Pai Profeta, Fofandó, B-Black, Papa Munene, entre outros.
De realçar que a Comissão de Carteira Profissional do Artista foi criada a 27 de Julho de 2022, via decreto, pelo Ministério da Cultura.
A mesma foi criada com o objectivo de garantir aos artistas os mesmos direitos que os outros profissionais, ajudar os artistas a beneficiarem de uma pensão de reforma, criar consciência para o auto-asseguramento do artista, incluir os artistas nos programas da administração pública e velar por outros aspectos inerentes à melhoria do tratamento e valorização da classe artística em Angola.
A carteira tem validade de dois anos, e para a sua obtenção, é exigida uma comissão de 25 mil kwanzas por parte do requerente.