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OPAÍS

Um sistema de meritocracia exemplar: o caso do Partido Comunista da China

Jornal Opaispor Jornal Opais
20 de Dezembro, 2024
Em Opinião
Um sistema de meritocracia  exemplar: o caso do Partido  Comunista da China

A trajetória socioeconômica da China ao longo das últimas décadas é frequentemente referida como o ´milagre da China`, dada a consistência do seu desempenho econômico e os avanços sociais notáveis.

No entanto, embora muitos estudiosos atribuam tal sucesso a fatores diversos, um elemento essencial raramente mencionado é o sistema de meritocracia política, implementado pelo Partido Comunista da China (PCCh).

Este mecanismo de seleção e promoção de lideranças, tanto em âmbito local quanto nacional, constitui um dos pilares fundamentais por trás da estabilidade política e do progresso econômico e social do país.

A meritocracia, ao priorizar a ascensão de indivíduos com base no mérito, desempenha um papel determinante na administração pública e na gestão de talentos.

Ao estabelecer capacidades, competências e resultados como critérios principais para o avanço, este sistema fortalece instituições, promove a eficiência na tomada de decisões e assegura a continuidade de políticas públicas eficazes.

A promoção de líderes com base na meritocracia, é parte da cultura milenar da China. Em todo o caso, o Partido Comunista da China apresenta-se, como um caso de estudo singular, especialmente por adoptar uma meritocracia política intrinsecamente alinhada com o modelo de democracia centralizada.

De acordo com Daniel Bell, professor e teórico político da Universidade Tsinghua, na sua obra The China Model, a meritocracia política na China distinguese de regimes autoritários despóticos. Enquanto estes últimos sustentam-se pela coerção, a meritocracia política busca selecionar líderes com base em competência e virtude.

Mao Zedong, nas suas diretrizes, enfatizou que “os quadros são o fator determinante” e que seria tarefa do partido formar lideranças de forma planejada. O sistema meritocrático consolidou-se na era de Deng Xiaoping, a partir do final da década de 1970.

Após os anos tumultuosos da Revolução Cultural, que comprometeram a estabilidade política e econômica do país, Deng reconheceu a necessidade de modernizar a China mediante reformas pragmáticas e eficientes.

E impulsionar o setor privado e atrair investimentos estrangeiros, Deng instituiu novos critérios para o recrutamento e promoção de lideranças no partido, no Estado e nas empresas públicas e privadas.

O modelo meritocrático do PCCh caracteriza-se por uma lógica estruturada e gradual. O processo de identificação de talentos inicia-se em níveis locais, onde os quadros são avaliados pela sua capacidade de implementar políticas públicas, solucionar problemas concretos e atingir metas estipuladas pelo partido.

Não há privilégios hereditários ou atalhos baseados em conexões familiares ou patrocínios políticos. Cada cidadão deve trilhar o mesmo caminho, subindo degrau por degrau, num sistema que premia a excelência, integridade e compromisso ideológico.

A avaliação dos quadros abrange indicadores objectivos, como crescimento econômico nas regiões administradas, e subjectivos, como capacidade de mobilização política e adesão ideológica.

A par disto, o sistema de rotação de quadros expõe líderes a desafios administrativos em diferentes contextos geográficos, para prepará-los para cargos de maior responsabilidade.

Um aspecto notável deste modelo é a ênfase na integridade pessoal. Envolvimento em escândalos ou corrupção é absolutamente incompatível com a progressão na estrutura partidária.

Anualmente, os melhores estudantes universitários competem para ingressar no PCCh, são avaliados com base em mérito acadêmico, caráter moral e alinhamento ideológico. A ascensão de Xi Jinping, atual presidente da China, exemplifica a lógica meritocrática do PCCh.

Sua carreira iniciou-se em posições administrativas modestas na província rural de Shanxi, onde enfrentou desafios severos, como pobreza extrema e infraestrutura precária.

Posteriormente, liderou regiões mais complexas, como Fujian, Zhejiang e Xangai, demonstrou resultados consistentes e capacidade de atrair investimentos estrangeiros.

Xi Jinping galgou 16 cargos públicos ao longo de 40 anos, acumulou experiência administrativa e governou, ao todo, uma população de aproximadamente 150 milhões de pessoas antes de alcançar a liderança nacional.

Sua trajetória reflete o compromisso do sistema meritocrático com a promoção gradual de líderes que demonstrem resultados concretos, adaptação estratégica e adesão ideológica.

O sistema meritocrático do PCCh desempenhou um papel central na transformação da China numa potência global. Ele não apenas garantiu estabilidade política e eficiência administrativa, mas também possibilitou a implementação de reformas estruturais ambiciosas, como as Zonas Econômicas Especiais e o programa Made in China 2025.

Este modelo contribuiu para a gestão de desafios internos, como a urbanização em massa, a mitigação de desigualdades regionais e o combate à corrupção.

Um dos feitos mais emblemáticos é o programa de redução da pobreza, que retirou mais de 600 milhões de pessoas da pobreza extrema em menos de quatro décadas — um feito sem precedentes na história contemporânea.

Embora o sistema meritocrático da China apresente desafios e críticas, ele destaca-se como um modelo que privilegia a competência e a experiência em detrimento de escolhas populistas ou arbitrárias.

Cada nação possui suas particularidades, mas há lições universais na meritocracia do PCCh, especialmente no fortalecimento institucional e na gestão eficiente de políticas públicas.

Portanto, apesar de não ser um modelo perfeito, a meritocracia do Partido Comunista da China oferece uma alternativa notável ao demonstrar que a liderança baseada no mérito pode assegurar estabilidade, eficiência e desenvolvimento sustentável. Como dizia um provérbio chinês: “A montanha mais alta é alcançada um passo de cada vez.”

 

Por: EDMUNDO GUNZA 

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