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José Oliveira: “Sanções contra a Rússia influenciaram o mercado”

Miguel Kitaripor Miguel Kitari
24 de Fevereiro, 2023
Em Economia

Investigador do CEIC/UCAN para a Energia, José Oliveira responde as perguntas do Jornal OPAÍS sobre a guerra na Ucrânia, um ano depois. O investigador diz que a Rússia foi asfixiada pelas sanções aplicadas pelo Ocidente

Depois de muito tempo em baixa, no ano passado o preço do barril de petróleo disparou, atingindo os 139 dólares. Que influência teve o conflito Rússia/ Ucrânia na subida do preço do petróleo nos últimos 12 meses?

Os preços a baixos dos 50 dó- lares aconteceram durante 2020 devido à Pandemia do COVID que baixou abruptamente o consumo em mais de 10 milhões de b/d, portanto, devido a uma situação anormal. Em 2021 a média anual do barril andou pelos 70 dólares. Em 2022 a guerra na Ucrânia destabilizou temporariamente o mercado e registou-se o pico momentâneo de 139 dólares, mas a média anual do petróleo andou pelos 100 dólares/barril. Mais do que a guerra que gera incerteza no amanhã, o que mais tem influenciado as maiores cotações do barril são as múltiplas sanções ocidentais contra a Rússia, porque se trata de um dos maiores abastecedores do mercado mundial, em paralelo com a Arábia Saudita.

Em face destas sanções, o que poderá acontecer nos próximos tempos?

Se a Rússia se vir impedida de exportar acima dos 7 milhões de b/d (Mb/d) – em Janeiro ainda conseguiu exportar 8,2 Mb/d, valor acima da média de 2021 e 22 que foi de 7,4 e 7,8 Mb/d respectivamente nos próximos meses, devido às sanções impostas pelos Americanos e Europeus, na segunda metade do ano o mercado vai estar em deficit, se as principais economias não entrarem em recessão, e os preços podem subir. Até meados deste ano há um excedente de oferta que se vai reduzindo ou não de acordo com os volumes exportados pela Rússia. O aumento de consumo em 2023 deverá rondar os 2,0 Mb/d e os aumentos de produção fora da OPEP devem rondar os 1,2 Mb/d, dos quais cerca de metade dos Estados Unidos. A baixa de exportações russas na segunda metade do ano poderá ter de ser, em par- te, compensada com aumentos da Arábia Saudita ou Emiratos Árabes Unidos, os únicos membros da OPEP com capacidade de aumentos de produção imediata.

Pelo meio tivemos ainda a manutenção das refinarias…

A manutenção das refinarias tem influência de curto prazo a nível de preços e geralmente mais nas cotações dos principais combutíveis – Gasóleo, Gasolina e Jet. Agora está a viver-se no mercado mundial uma carência de gasóleo porque a Europa, grande consumidora, importava da Rússia mais de 1,0 Mb/d de gasóleo e actual- mente anda a importar de outros mercados, aonde também não há excedentes. A principal razão está na redução da capacidade de refinação nos Estados Unidos, nos últimos três anos de quase 2,0 Mb/d que ainda não foi compensada totalmente pelas novas refinarias da Ásia, em especial. Em Dezembro e Janeiro recentes as vagas de frio nos Estados Unidos paralisaram muitas refinarias e agravaram a falta de gasóleo e de Jet/Kero no mercado mundial.

A estabilidade de preço que se regista hoje, com oscilação 80/90 dólares, pode ser considerada artificial em função dos cortes decididos pela OPEP, em Novembro do ano passado?

As cotações médias que se vêm registando são fruto directo do mercado e não têm nada a ver com os cortes decididos em novembro pela OPEP, os quais se devem ao facto de, no último trimestre de 2022, haver um excedente de oferta, calculada pela Agencia Internacional de Energia, em Paris, em cerca de 1,0 Mb/d. Mas a verdade é que nessa aparente estabilidade de médias de cotações mensais há a assinalar uma volatilidade diária de mais de 2 dólares/barril, que é o dobro das variações diárias de preços em 2021! E esta volatilidade tem a ver com a guerra da Ucrânia e com as sanções aplicadas às exportações da Rússia.

Face ao actual quadro, que medidas os países petro-dependentes, como é o caso de Angola, devem tomar em termos de valorização das receitas provenientes das vendas do petróleo?

Em virtude de Angola estar a viver, há uns anos, com um OGE acima da capacidade real da sua economia, razão pela qual quase metade se destina ao pagamento de capital e juros das suas dividas externa e interna, a medida mais acertada é reduzir o endividamento futuro para não entrar- mos, a médio prazo, em situação de incumprimento, quando as receitas do petróleo se reduzirem. Quando a produção de petróleo baixar para menos de 1,0 Mb/d e/ ou os preços descerem para níveis abaixo dos 75 dólares, Angola vai enfrentar sérias dificuldades financeiras se não reduzir rapidamente a sua divida e as necessidades de financiamento anual do OGE.

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